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voc.: neurastenia, etiologia , nosologia, crença
eóica p. 114
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p. 19
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- tristeza
num sist. nervoso são
infelicidade comum resultado das pressões
ou do
dia-a-dia sobre
infortúnio corrente
(ordinário) uma pessoa
- neurose
sit. nerv, indv. neurótico
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p. 42
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- histeria: produz afetos
- O elemento psíquico compreende a escolha do
conteúdo, mas não dá conta da origem do afeto.
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p. 44
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- O caminho para a coisa genital foi aberto
por alguns elementos do saber da época, mas apenas Freud arriscou-se a
colocar o fator sexual em pé de igualdade com a disposição hereditária,
construindo “sua igreja” sobre essa pedra.
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p. 45
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- Freud apresenta duas hipóteses sobre a angústia:
a angústia procede da inibição da função sexual, e a outra, a angústia seria
um medo psíquico primitivo, não somático, repetido posteriormente no momento
traumático, ou no ato sexual, quando esse possibilitasse o temor por uma
gravidez indesejada (angústia real). Em ambas , a angústia encontra-se
relacionada ao fator sexual.
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p. 47
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- Foram os desenvolvimentos teóricos e as
observações de Freud a respeito do relato sobre a vivência de luto, que
possibilitaram colocar a tristeza como termo de comparação e discriminador
entre o que é esperado (normal), e o que extrapola o limita da normalidade
(sintomas).
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p. 48
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- Normal é quem suporta as pressões da vida
(afetos penosos) apenas se entristecendo.
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p. 50
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- A teoria da angústia mais sistemática é
apresentada no Rascunho E (Freud, 1894, p. 78-83). Nele, a angústia é
colocada como o produto da tensão sexual física que aumenta e não consegue
ser revertida em um afeto sexual psíquico. No esquema hipotético de Freud,
existem duas esferas: a somática e a psíquica. A excitação chega sempre pela
via somática (ligada à percepção externa e interna) e deve atingir um certo
limiar (soma) para ser transcrita na esfera psíquica (como uma descarga). O
limite sendo alcançado, os elementos psíquicos oferecem à excitação sexual
somática ligações para que ela se transforme em libido (afeto sexual anexado
a certa representação erótica). Quando por algum motivo a soma atinge o
limiar mas é impedida de se transformar em libido, ela permanece na esfera
somática e se transforma em angústia.
Quando
há um desenvolvimento abundante de tensão sexual física, mas esta não pode
ser transformada em afeto pela elaboração psíquica - por desenvolvimento
insuficiente da sexualidade psíquica; ou por causa da tentativa de repressão
desta última (defesa); ou pro estar ela em decadência; ou por causa da
alienação habitual entre a sexualidade física e a psíquica - a tensão sexual
se transforma em angústia. Assim, um certo papel é desempenhado nisso pelo
acúmulo da tensão física e pelo impedimento da descarga na direção psíquica.
(id. ibid., p. 82).
- (Freud optou pela primeira hipótese do Rascunho
A, p. 45)
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p. 60
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- O mecanismo de defesa atua sobre as
representações eróticas, e apenas mais tarde Freud poderá esclarecer isto
melhor. nota 34 - Há uma carta, na qual ele comenta que, quando chega a um
determinado nível, toda repugnância moral é superada (no caso ele se refere à
preparação para o ato sexual).
- (repugnância moral superada em Freud não teria
algo a ver com suspensão da moral em Kierkegaard?)
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p.
63
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Hasta entonces se le antojaba
que era bastante fuerte para prescindir del apoyo de un hombre; ahora se
apoderaba de ella un sentimiento de su debilidad como mujer,
una añoranza de amor en la que, según sus propias palabras, la solidez de su
ser empezaba a derretirse. (AE II, p. 168).
- Novamente aparece a idéia de debilidade, como a
idéia de força/fraqueza do eu em relação às representações contrastantes
penosas (artigo de 1892, sobre o tic de Emmy). Aqui, a sensação de debilidade
é o resultado de perdas reais e da insatisfação do desejo de substituir o que
foi perdido. O sentimento de debilidade por não conseguir satisfazer o desejo
é um ponto comum entre tristeza normal e histeria. Ambas representam um
período onde há sofrimento e ânsia pela resolução de um desejo que fica em
suspenso.
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p. 65
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- A tristeza é mais um entre outros termos usados
para descrever os sentimentos (resultado do trânsito dos afetos sobre as
representações) ou os chamados estados de ânimo. Todavia Freud a destaca,
estabelecendo-a como um termo de comparação entre normal e patológico. E
podemos designar por tristeza, todo resultado do trânsito de afetos penosos
que não produzam nenhum tipo de sintomas. A idéia ainda que não chegue a ser
um conceito tem uma função precisa no projeto teórico de Freud.
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p. 79
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- O objeto desiderativo (seu registro psíquico)
possui, assim como o registro do objeto perceptivo, duas partes: uma fixa,
que Freud chama de coisa, e é representada no núcleo, e uma parte
variável, que é o predicado da coisa, representado no manto. As
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p. 80
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duas partes formam uma seqüência associativa
primária, ou seja, foram associadas por simultaneidade. Com a função
secundária, há a formação de uma seqüência associativa secundária, ou seja, a
associação se dá por contigüidade.
- O objeto, segundo a “filosofia” do Projeto,
no máximo pode ser inferido, ele é o resultado de uma crença que o aparelho
produz na existência de um objeto externo. O mundo é objeto de crença, as
expectativas, surgidas a partir da re-ocupação da vivência de satisfação,
criam em nós a sensação de que assim como houve sensações vividas, novas
sensações poderão ser experienciadas, ou seja, sensações possíveis. A crença
estabelece uma certa perenidade, oposta à fugacidade de nossas sensações.
nota 43 - Posteriormente, em um artigo intitulado Sobre a transitoriedade
(1915), Freud coloca que as expectativas criam em nós uma pretensão à
eternidade (BN, II, p. 2118). As expectativas nada mais são que o
desejo de que a satisfação seja novamente encontrada ou vivida. E,
justamente, por nossas sensações serem momentâneas, limitadas no tempo, que
possuem tanto valor para nós. A sensação comporta valor de ser raro no
tempo (id. ibid).
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p. 81
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- O caso relatado é o de uma jovem que se
apaixonou por um homem e acreditou que ele também lhe dirigia o mesmo afeto.
Até que um dia, descobre que o homem a visitava por outro motivo, ele não
estava apaixonado por ela. A partir desse momento, o momento de sua desilusão,
a jovem começa a se defender da desilusão produzindo
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p. 82
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sintomas conversivos. E por ocasião de uma festa
de sua família, ela se convence que ele virá; e ao fim do dia, quando ela
pode constatar que ele realmente não vem, a jovem alucina: o vê chegar, ouve
sua voz, e corre para recebê-lo. “A partir desse momento vive por um
espaço de dois meses em um ditoso sonho: o homem está sempre a seu lado, não
a abandona um só instante (...)” (BN I, p. 176).Essa jovem sofreu
uma desilusão mas não pode suportar os seus efeitos (sofrimentos), com a
alucinação ela não se entristece (“encontra-se feliz e tranqüila”. Id.
ibid.), mas também, perde o contato com a realidade externa.
- (a alucinação impede o indivíduo de
entristecimento e desliga-o da realidade)
- Segundo: o aparelho pode se valer do pensamento,
criando a partir do estado de desejo, um anseio, que poderíamos entender como
um segundo tempo do desejo, tempo em que a atenção do eu ocupando todas as
percepções para encontrar a desejada, levanta todos os objetos semelhantes e
que mantêm relações associativas com aquele procurado. Nesse momento, se o
nível de Q aumentar muito, algum tipo de descarga ocorrerá (não a ação
específica) como o choro, a fala, etc. O objeto na percepção não é
encontrado. Esse momento de busca do processo secundário é análogo à descarga
alucinada no processo primário.
- Aqui, ainda que o pensamento continue seu
trabalho, tem-se algumas possibilidades: ou a re-ocupação dessa vivência de
satisfação passa a funcionar como uma vivência de dor, estabelecendo uma
vivência dolorosa; ou a situação da morte de alguém amado em si significa uma
erupção de Q externa no sistema perceptivo, constituindo-se uma vivência de
dor com um eu desenvolvido. Parece mais coerente, ao que Freud propõe, a
primeira hipótese, visto que o problema do luto advém do desejo
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p. 83
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pela pessoa amada e perdida. Se o morto não fosse
amado (desejado), ele não significaria um aumento de Q em y. O luto é decorrência de
uma necessidade interna. A quantidade interna está relacionada à vivência de
satisfação, e a quantidade externa, à vivência de dor.
- Como Freud ainda não estabeleceu uma associação
entre as duas vivências, elas correm paralelas e, teoricamente, não se
encontram. Essa falta de ligação entre ambas é um limite para uma conclusão
em nossa análise. Além disso, no Projeto, Freud reduziu a extensão do conceito de
afeto, confinando-o à recordação da vivência dolorosa, e que antes (nos Estudos, e em outros textos de 1894 e 1895), o termo referia-se a todo
aumento ou movimento da excitação na esfera psíquica. O luto é um fenômeno
afetivo e doloroso, mas advindo de um estado de anseio.
- Seria preciso, para
continuarmos a análise, de uma explicação possível para justificar uma
transformação do objeto representado. Pois nesse momento, quando ocorre a
perda do objeto real, seu representante psíquico, o objeto de desejo,
torna-se, ao mesmo tempo, um objeto hostil, no sentido de que é um objeto que
ao ser investido aumenta o nível de Q por não ser mais possível realizar a
descarga através dele. Ao mesmo tempo, está em andamento um processo
perceptivo, que corresponde ao sujeito tomar consciência que o objeto real
não existe. Essa percepção também deverá ser registrada em y do manto, uma representação
da ausência. Apesar que o próprio registro já significa de alguma forma a
ausência, pois o registro não é o próprio objeto.
- O que a atenção pode encontrar é: ela já está
ocupando o registro do objeto do desejo (núcleo-manto) e encontra as
representações da percepção (j-manto), que como o
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p. 84
pos-doc Michele
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objeto está ausente não deve estar investida.
Também, é necessário que haja uma primeira vivência da ausência, uma
experiência fundadora, pois este modelo de aparelho é empirista: não há nada
registrado em y que não advenha de uma vivência anterior relacionada a uma sensação
corporal gerada.
- Se fosse possível relacionar as duas vivências,
o ponto de encontro inicial entre elas deveria ser o registro dessa
representação do ausente. A atenção e o juízo em seu trabalho de busca,
encontraria como única representação possível de ser ocupada uma tal
representação, pois ela guardaria algum tipo de semelhança com a imagem do
objeto desejado no manto, e traria um traço novo indicativo da ausência. Como
não há como comprovar o que afirmamos, não passa de hipóteses especulativas
para podermos continuar a análise.
(- ausente é o que não está mais presente como
fonte de sensação à via corporal
- ausente é o já sentido, registrado em y-manto
- a crença não é uma tentativa de representação do
(ainda)-não-presente, que é igual a ausente?
- a crença não poderia ser também uma tentativa de
representação do (já)-não-presente, que é igual a ausente?)
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p. 90
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- Na carta 39- nota 46 - Datada de 01/01/1896.
Freud, 1986, p. 159-163. - Freud reordena as posições dos três sistemas de
seu aparelho. Com essa nova organização, a Q externa não atinge y, através de j, mas apenas recebe
notícia de que determinada percepção impressionou w (a consciência). A
excitação de Y é exclusivamente interna. Se na esfera psíquica só circula Q
endógena, não há mais com sustentar a teoria do trauma, e assim, o luto não
poderia mais ser tomado como situação traumática na explicação dos sintomas.
Também, não poderíamos continuar a considerar a hipótese, que levantamos no
item anterior, do luto corresponder a uma vivência de dor com um eu
constituído, inundando-o com uma grande Q externa. Sendo a Q sempre interna,
as excitações, o anseio e o desprazer gerados, no período de luto, advém de
fonte interna.
- O fato da perda do objeto ser um fato da
realidade impressiona a consciência, e ela por sua vez, pode orientar a
atenção em para y uma determinada recordação, não introduzindo nenhum valor
quantitativo no aparelho. A dicotomia Q externa/Q interna, foi substituída
pelo conflito entre a condução quantitativa e os processos estimulados pelas
sensações conscientes (qualidade). A tristeza pode ser um sinal desse
conflito: de um lado o estado de anseio (Q) e, de outro, a informação
consciente de que o objeto está ausente. Esse conflito será posteriormente
mantido através da oposição entre energia livre (desvinculada) e energia
ligada (vinculada em processos associativos). A produção da dor fica referida
a Q interna.
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p. 91
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“(...)
a suspensão da adição e um afluxo contínuo [de Q] pára y por algum tempo. Certos neurônios w ficam então
hipercatexizados e produzem um sentimento de desprazer, fazendo também com
que a atenção se fixe nesse ponto”.
(Freud, 1986, p. 162)
- A consciência passa a ser um órgão de dupla
face: recebe impressões de exterior, e do interior do aparelho
(prazer/desprazer). Conscientizar-se de algo implica, não mais nas
propriedades da percepção em si, mas dos princípios associativos que vigoram
entre os sistemas. Fato que nós praticamos deduzimos quando colocamos que a
vivência de luto dependia das associações feitas à representação (interno) do
objeto perdido, e não da morte em si (externo). Assim, a percepção da
ausência do objeto amado na realidade, quando tornada consciente, já se encontra
vinculada aos diversos laços associativos que a representação psíquica de tal
objeto possui.
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p. 95
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- Quando Freud equivale sintoma e sonho, prazer e
desprazer sendo gerados pela mesma fonte: “Os sintomas, tal como os
sonhos, são realizações de um desejo” (Freud, 1986 [31/05/1897], p. 252);
não há mais o impedimento que encontramos no Projeto. A
dicotomia foi superada, e um estado doloroso ou afetivo pode decorrer de um
estado de desejo, bem como um desejo poderá ser recalcado.
- Daqui em diante, é o desejo, ou melhor, a
libido, o afeto responsável pela tristeza. A tristeza é o composto e a
exteriorização do movimento da libido insatisfeita ou acumulada (afeto
penoso), advinda de uma representação de objeto perdida, sendo que tal objeto
pode ser qualquer coisa, pessoa, ideal, ou idéia (fantasias) amada que o sujeito
se vê, repentinamente, obrigado a abandonar por questões externas, que
independem dele (destino), ou por questões de sua economia interna (como foi
o caso de Elizabeth abandonar o seu primeiro amor). Ela é, então, determinada
pelos estados contemporâneos da libido, podendo ser uma de suas muitas
expressões.
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p. 98
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- No primeiro esboço, o Rascunho A - nota
49 omitida por mim - , Freud levanta um série de problemas sobre as neuroses
sexuais (neurose de angústia e neurastenia), define os grupos de observação
de ambas as categorias, e levanta algumas hipóteses sobre o funcionamento
dessas. Ele se pergunta sobre que entra na etiologia da depressão leve (Verstimmung)
e a define como uma das formas de manifestação do ataque de angústia, com
duração de dias ou semanas. Ele supõe que, da mesma maneira que a angústia
assume a forma de uma fobia (medo), o ataque de angústia pode assumir a forma
de um transtorno de humor, quando o sujeito fica deprimido e amuado. Essa
definição permanece até 1895, com a publicação do artigo Neurastenia e
neurose de angústia (op. cit.), no qual o autor mantém a definição de
depressão.
- Nos Estudos, pudemos observar que
Freud relacionou o transtorno de humor ao esgotamento; no Rascunho A,
ele afirma que nem os excessos simples nem a sobrecarga de trabalho são
fatores etiológicos para a depressão e a neurose de angústia. O próximo
rascunho é o B (08/02/1893, op. cit.), que traz a fórmula etiológica
sexual. O excesso e a sobrecarga são tomados com influências tóxicas, ou
fatores de segunda ordem, que só
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p. 99
|
podem funcionar patologicamente quando em presença
de um fator de primeira ordem, sempre sexual.
- A depressão leve, sintoma da neurose de
angústia, é análoga à tristeza nos processos normais, tóxicos. A tristeza é
uma intoxicação por um afeto penoso simples, enquanto que a depressão é uma
intoxicação por angústia com um fator sexual presente. É importante
distinguir os três elementos envolvidos: o afeto penoso interno (variável e
qualificado por seu acúmulo), o elemento sexual, e a manifestação afetiva
desse movimento psíquico sob a orientação do afeto, e que nada mais é que o
estado de ânimo apresentado externamente pelo sujeito, e dependente do
vínculo que o afeto fará com determina representação psíquica (como é o caso
das representações contrastantes penosas) e da presença/ausência do elemento
sexual.
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p. 102
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- Omne animal post coitum triste. (Freud,
1986, p. 94) - MASSON, J. M. A correspondência completa de Sigmund Freud para
Wilhelm Fliess (1887-1904). Rio de Janeiro: Imago, 1986.
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p. 106
|
Alguns
conhecimentos simultaneamente adquiridos, sobre o mecanismo da melancolia
podem ser intercalados neste ponto [transformação da tensão somática
em angústia]. De modo,
particularmente freqüente, os melancólicos são anestésicos. Não têm
nenhum desejo de coito (e nenhuma sensação ligada a ele), mas têm uma grande
ânsia de amor em sua forma psíquica - uma tensão erótica psíquica,
poder-se-ia dizer; quando esta se acumula e permanece insatisfeita, surge a
melancolia. Esta, portanto, seria a contrapartida da neurose de angústia.
Quando há acúmulo de tensão sexual física - neurose de angústia.
Quando há acúmulo de tensão sexual psíquica - melancolia. (Freud,
1986, p. 80)
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p.
107
|
- A segunda parte (do Rascunho G) são os
pontos teóricos que Freud considera seguro, e os estabelece como pressupostos
para as demais considerações. O primeiro ponto é o que mais nos interessa,
pois nele é estabelecido como o afeto penoso, próprio da afecção melancólica,
o luto (Trauer). E o luto será definido como o anseio (Sehnsucht)
por algo perdido (verlorenen). Na melancolia não se trata da perda de
alguém. Antes, trata-se de uma perda (Verlust) na vida psíquica do
sujeito. Em termos sexuais e psíquicos, esta afirmação corresponde a uma
perda de libido: “Não seria tão mau, portanto, partir da idéia de que a
melancolia consiste num luto [tristeza] pela perda da libido”
(Freud, 1986, p. 99).
- (perda da libido: perda na vida psíquica: perda
simbólica: perda da capacidade de amar/de prazer = perda da libido)
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p. 110
|
- Sempre que Freud encontra problemas na
continuação de seu raciocínio teórico, ele recorre à clínica, como um apoio,
uma explicação provisória, mas não suficiente. E é isso o que ele faz aqui:
usa como argumento para relacionar anestesia e melancolia a freqüência
clínica observada de mulheres anestésicas que desenvolvem melancolia.
- Na sexta e última parte, Freud descreve os
efeitos da melancolia externamente: inibição psíquica com empobrecimento
pulsional e dor a respeito dele. E internamente:
Podemos
imaginar que, quando o grupo sexual psíquico depara com uma perda muito
grande no volume de sua excitação, é possível que ocorra um retraimento, por
assim dizer, para a esfera psíquica, que produz um efeito de sucção sobre os
volumes de excitação adjacentes. Os neurônios associados têm que abandonar
sua excitação, o que produz dor. Desfazer associações é sempre doloroso;
instala-se, como que através de uma hemorragia interna, um empobrecimento da
excitação (no estoque livre dela), que se faz sentir nos outros impulsos e
funções
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p. 111
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pulsionais. Como na inibição, esse
retraimento age como uma ferida, de maneira análoga à dor (...). (Freud, 1986, p. 104)
- Nesse que é o principal trecho deste manuscrito,
é muito interessante e original a forma como Freud descreve as conseqüências
internas da perda de excitação. A dor é decorrente de uma retirada abrupta de
energia interna e elaborada, de quebra no fluxo de excitação que
mantém investidos os complexos representacionais. Com a diminuição no fluxo,
o grupo psíquico precisa buscar excitação onde ela resta, e é essa busca
(anseio) que causa uma invaginação no psiquismo. De acordo com o Projeto
(1895), o reservatório de libido para situações de emergência é o eu, formado
por um grupo de neurônios associados entre si, ou seja, bastante facilitados
e constantemente ocupados pela libido. Ocorrendo a perda libidinal, é o
reservatório que estará sendo assaltado.
- Como podemos notar não há na melancolia
representações hiperinvestidas, como acontece nas neuroses de defesa, antes
parece que nela tudo funciona ao contrário. As representações são
sub-investidas, e até desinvestidas, acarretando dor; em outras neuroses o
que é penoso ao sistema é o acréscimo de excitação que não encontra descarga
(por exemplo, as representações desprazíveis), na melancolia há uma
diminuição, e até parece que ocorre como que uma descarga interna e ao
avesso, que não gera prazer. A ferida psíquica, este buraco por onde a libido
escoa, só poderia ser um neurônio ou um complexo deles, pois não há outra
estrutura descrita no aparelho a que possamos recorrer. A hemorragia de
libido lembra uma irrupção ao contrário, algo escorrendo por dentro do psiquismo
(seu avesso). E ainda que uma captação de
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|
p. 112
|
emergência seja feita no estoque de libido, parece
que isso não reverte o quadro. E o mais contraditório, o princípio de
constância não se sai melhor com este desinvestimento, pois o desprazer e a
dor continuam.
- Temos a impressão que a única forma dessa
passagem tornar-se compreensível e coerente é pensar que não há uma
diminuição na produção de excitações, mas sim que não há energia que resolva
por conta desta ferida aberta no meio do grupo sexual psíquico. Como se fosse
uma grande conta bancária negativa e a quantia de que se dispões para
cobri-la não pagaria os juros. E voltamos à pergunta: para onde vai essa
hemorragia? Pois parece que não vai nem para o somático, nem para o psíquico,
visto que ela desfaz as associações. A libido está sendo investida em uma
representação que não tem fundo, ou uma representação-buraco...
- Nessas especulações, uma coisa é certa: o que
será afetado na esfera psíquica, ou no sistema y é o reservatório, o eu.
Além disso, a hipótese freudiana de que a melancolia se trata de uma perda de
libido, acaba vinculando os desenvolvimentos da afecção ao desenvolvimento do
conceito de libido.
- (A propósito da representação que não tem fundo,
ou uma representação-buraco...(p. 112) duas idéias: 1 - a representação sem
fundo poderia aqui ser entendida na ótica da crise do sentido desencadeado
pela primazia do universo da poiesis - texto do Lima Vaz - como representação
a partir do universo que carece de sentido; 2 - representação-buraco (negro)
como na astrofísica: o buraco negro suga o que se aproxima de seu alcance
gravitacional e este mesmo movimento de sucção mantém (ou manteria) a
hemorragia - entendida como o deslocamento das coisas e seus predicados
(p. 79) tornados “feridas psíquicas”;
- O buraco negro é um escoamento ao avesso pois
está dentro de um todo (o universo) - pergunto: o psiquismo poderia ser
considerado um universo para o eu? E o mundo real, também não seria um
universo para o eu? Seria correto dizer que psiquismo e mundo real,
realidades interna e externa, são universos para o eu porque lhe oferecem
coisas e predicados (objetos) de representação? Se as respostas forem
afirmativas, imagino que esse escoamento hemorrágico de libido poderia
funcionar como o mecanismo da crença (p. 80) que, se entendi bem, funciona
como um artifício de manutenção prazerosa ao eu na e da realidade que está
inscrita no tempo. Do mesmo modo que a crença incita à eternidade (nota 43),
a hemorragia da libido abriria espaço à produção (?) de sensações contrárias
à anestesia para manutenção do aparelho.
- A hemorragia da libido, como a crença, é
resposta do aparelho a esta pulsão de manutenção de si mesmo. O curioso é que
esta manutenção aconteça por sub-investimento ou des-investimento (fico me
perguntando se esta resposta no caso da hemorragia da libido não estaria
velando uma outra pulsão: a da destruição - thanatos?). Pergunto de
novo: não seria a hemorragia da libido um artifício do aparelho psíquico para
equilibrar os dois universos? A crença, de certa forma, não estaria também
estruturada neste movimento de escoamento?, um escoamento, de expectativa,
para a eternidade? A questão é: para onde a hemorragia da libido faz escoar,
como você coloca na p. 112: “...não vai nem para o somático, nem para o
psíquico, visto que ela desfaz as associações”.
- Esta volta toda é para relembrar um assunto que
me parece já discutimos juntos, naquele almoço na uniesp: a questão do
universo paralelo - “Como Freud ainda não estabeleceu uma associação entre as
duas vivências, elas correm paralelas e, teoricamente, não se encontram. Essa
falta de ligação entre ambas é um limite para uma conclusão em nossa
análise.” (p. 83) Parece-me claro que as representações em torno da
eternidade justificam o desejo de permanência do eu no tempo, no qual há o
desprazer. Que termo ou conceito poderia ajudar na representação deste onde
ao qual a hemorragia escoa?
- representação que não tem fundo,
representação-buraco: carece de fundamentação poiética - sentido
- “properspectiva”:
- à
medida que o eu avança ou quer avançar no tempo, como pretensão de registro
no futuro possível:
crença
*
eu eternidade
- a
hemorragia da libido ou invaginação no psiquismo abre uma trajetória de
registro no esquecimento (buraco) da memória y:
invaginação
 *
hemorragia eu
da libido eternidade ao
avesso? = findação? finitude?
- pergunto (hipótese): tanto crença quanto
invaginação não seriam (ou poderiam ser) movimentos ou impulsos que lançam
(projetam e escoam) representações no nada, de onde se pode criar ou
re-criar?)
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p. 124
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- A tristeza é uma das reações ao desamparo do
homem frente à Natureza e o Destino. Ela nos lembra de nossa condição de
origem - desamparo e dependente, e revela as dificuldades que podem ser
encontradas em nossas relações com a realidade. A constatação da qual a
tristeza é sinal - que há desejos que permanecerão insatisfeitos - torna
necessária que cultura seja produzida, tanto como um meio para lidar com a
carga de anseio em excesso (como um refúgio), quanto para se proteger do
desamparo real de nossa raça. E, ao mesmo tempo, ela também é a prova de que
a civilização não nos bastará.
- Para evitar o sofrimento, é necessário que o
homem consiga um certo domínio sobre suas fontes endógenas (pulsionais), que
pode ser alcançado perseguindo uma moderação na vida pulsional sob o governo
de instâncias psíquicas superiores submetidas ao princípio de realidade.
Ainda uma outra forma, os deslocamentos da libido sobre o aparelho psíquico
dão grande flexibilidade a seu funcionamento. Reorientar os fins pulsionais
de tal forma a elidir a frustração do mundo exterior, é o que Freud chama de
sublimação pulsional. Em Mal estar na cultura, Freud aproxima
da
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p. 125
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sublimação artística o trabalho manual, ou
qualquer outro tipo de trabalho, pois nenhuma outra técnica liga o sujeito
tão fortemente à realidade, quanto a acentuação do trabalho.
- O sofrimento, a tristeza levam à tendência do
homem psicanalítico, como diz Herrmann (1991), a se tornar independente do
mundo, buscando uma satisfação em processos internos. “O homem
psicanalítico deseja bastar-se” (id., ibid, p. 236). Herrmann vai definir
o luto como relutância humana em se desprender do objeto original, que
corresponde à perda da fusão original consigo mesmo.
A
condição pura do luto primordial, sua manifestação dá-se na expectativa de
trânsito e é o que chamamos de ser na brecha entre representações. Herrmann, 1991, p. 238)
- E o que falamos neste trabalho não é exatamente
da dor e da tristeza envolvida nessa expectativa de trânsito e até mesmo no
início do trânsito, quando o deslocamento da libido já se iniciou? A
conquista ou re-conquista da fusão impossível com a própria imagem
autobastante está voltada ao fracasso. Porém Freud nos alerta a não
desanimar, ainda que o fracasso seja incerto:
El designio de ser felices que nos impone el principio del placer es
irrealizable, mas no por ello se debe - ni se puede - abandonar los esfuerzos
por acercarse de cualquier modo a su realización. (BN,
III, p. 3029).
- Assim, sendo a realidade sempre mais forte, e a
felicidade, algo profundamente subjetivo, e que diz respeito à história
individual, aos desejos infantis; nós temos
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basicamente duas saídas: ou desenvolvemos
estratégias para evitar o sofrimento ou desprazer, e/ou nos aferramos à parte
positiva da felicidade realizando alguns desejos, arriscando sofrer.
- Refletindo sobre tudo o que acabamos de ler e de
dizer sobre Freud, como poderemos interpretar esta passagem dele, em uma de
suas últimas cartas a uma amiga querida?
“No
momento em que nos perguntamos sobre o valor e o sentido da vida, estamos
doentes, pois objetivamente tais coisas não existem. Ao fazê-lo, apenas
admitimos possuir um quê de libido insatisfeita, a que algo mais deve ter acontecido,
uma espécie de fermentação que conduz à tristeza e à depressão”. (Carta de Freud a Marie Bonaparte,
13/08/1937) - nota 57 - Esta carta encontra-se no livro Sigmund Freud e o
Gabinete do Dr. Lacan. 1990, p. 129.
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Referências:
HERRMANN, Andaimes do real. SP:
Brasiliense, 1991.
FREUD. - Mal estar na cultura; - Luto e
melancolia; - Introdução ao narcisismo; - Inibição, sintoma e angústia; -
Três ensaios sobre a teoria da sexualidade; - Totem e tabu; Mal estar na
civilização; - O futuro de uma ilusão; - Sobre a transitoriedade (artigo);
Estudos sobre histeria;
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