quarta-feira, setembro 16, 2026

TELLES, Lygia Fagundes. Pomba enamorada - ou uma história de amor e outros contos escolhidos. Porto Alegre: L&PM, 2002. (Coleção L&PM Pocket vol. 150)

 

TELLES

Área: contos

Tema(s): contos de amor, amor platônico, contos com paralelismo, contos de circuito fechado,

 

TELLES, Lygia Fagundes. Pomba enamorada: ou Uma história de amor e outros contos escolhidos. Porto Alegre: L&PM, 2002. (Coleção L&PM Pocket vol. 150)

 

 

 

- Vários contos da autora, a começar com “Antes do baile verde” - que pode ser usado para mostrar esquema EXPECTATIVA amor e ódio - companhia e solidão

 

p. 5

- literatura lenitivo para almas

 

- busca do leitor

- Na apresentação Léa Massina sugere: “A qualidade literária desses contos, em imagens visuais, sugere que a literatura é também uma forma de incursão nas almas e, catarticamente, um lenitivo para os conflitos individuais.”

- [o eixo desses conflitos individuais não seria a EXPECTATIVA?]

- [ver também W. BENJAMIM “O narrador” - quando fala que o leitor se satisfaz com a morte do personagem]

- [ligar também com “E os que leem o que escreve/ na dor lida sentem bem/não as duas que ele teve/ mas só a que eles não têm” - o prosador é também um fingidor?]

p. 7

 

- Antes do baile verde

p. 21

 

- A caçada

p. 29

 

- O jardim selvagem

p. 41

 

- Natal na barca

p. 49

 

- A ceia

p. 66

 

- Venha ver o pôr-do-sol

p. 79

 

- As pérolas

p. 93

 

- O menino

p. 106

 

- As formigas

p. 117

 

- Tigrela

p. 127

 

- Herbarium

p. 138

 

- Pomba enamorada ou Uma história de amor

p. 148

 

- Lua crescente em Amsterdã

p. 156

 

- A estrutura da bolha de sabão

p. 164

 

- História de passarinho

p. 168

 

- Dolly

 

SUASSUNA, Ariano. O santo e a porca. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.

 

SUASSUNA

Área: poesia

Tema(s): níveis do poema

 

SUASSUNA, Ariano. O santo e a porca. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.

 

 

 

- Euricão Engole-Cobra, dona da porca cheia de dinheiro e devoto de Santo Antônio, vive com medo de ladrões.

- Margarida e Dodó; Eudoro e Benona; Caroba e Pinhão: casais.

- Confusão entre arrumar casamentos; proteger a porca dos ladrões; todos buscando seus interesses em cooperações forjadas nas circunstâncias.

p. 50

- traição de Santo Antônio

 

 

 

- cemitério lugar seguro

 

 

- mortos sem sonho e desgraça

 

- mudo dos mortos tranquilo

- lugar de tudo perder e nada achar

- “Euricão  ̶ ̶ Ah, agora estou só. Estará escondido? O quarto está vazio. E aqui? Ninguém. Agora, nós, Santo Antônio! Isso é coisa que se faça? Pensei que podia confiar em sua proteção mas ela me traiu! Você, que dizem ser o santo mais achador! É isso, Santo Antônio é achador e está ajudando a achar minha porca! Eu devia ter me pegado era com um santo perdedor! Agora não deixo mais meu aqui de jeito nenhum. O cemitério da  igreja! É aqui perto e é lugar seguro, Entre o túmulo de minha mulher e o muro, há um socavão: é lá que guardarei meu tesouro. Prefiro a companhia dos mortos à dos vivos, e ali minha porca ficará em segurança. Com medo dos mortos, os vivos não irão lá e os mortos, ah, os mortos não desejam mais nada, não têm mais nenhum sonho a realizar, nenhuma desgraça a remediar. Ao cemitério! Escondo a porca no socavão e à noite, quando todos estiverem dormindo, cavo a terra e hei de enterrá-la o mais fundo que puder. E você, Santo Antônio, fique-se aí com sua proteção e seu poder de encontrar. Lá, meu ouro, meu sangue, estará em segurança: o mundo dos mortos é mais tranqüilo, e, digam o que disserem os idiotas, lá é o lugar em que se perde tudo e não se acha nada!”

 

 

 

SANTOS, M. C. Fermentações da libido

 

SANTOS, M. C. Fermentações da libido: investigações acerca da idéia de tristeza nos escritos iniciais de Freud. 2004. 132p. Dissertação de mestrado - F. F. C. L. R. P., Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto.

 

 

voc.: neurastenia, etiologia , nosologia, crença eóica p. 114

p. 19

- tristeza                                                                                                num sist. nervoso são

                     infelicidade comum                      resultado das pressões

                              ou                                         do dia-a-dia sobre

                     infortúnio corrente (ordinário)      uma pessoa

- neurose                                                                                           sit. nerv, indv. neurótico

p. 42

- histeria: produz afetos

- O elemento psíquico compreende a escolha do conteúdo, mas não dá conta da origem do afeto.

p. 44

- O caminho para a coisa genital foi aberto por alguns elementos do saber da época, mas apenas Freud arriscou-se a colocar o fator sexual em pé de igualdade com a disposição hereditária, construindo “sua igreja” sobre essa pedra.

p. 45

- Freud apresenta duas hipóteses sobre a angústia: a angústia procede da inibição da função sexual, e a outra, a angústia seria um medo psíquico primitivo, não somático, repetido posteriormente no momento traumático, ou no ato sexual, quando esse possibilitasse o temor por uma gravidez indesejada (angústia real). Em ambas , a angústia encontra-se relacionada ao fator sexual.

p. 47

- Foram os desenvolvimentos teóricos e as observações de Freud a respeito do relato sobre a vivência de luto, que possibilitaram colocar a tristeza como termo de comparação e discriminador entre o que é esperado (normal), e o que extrapola o limita da normalidade (sintomas).

p. 48

- Normal é quem suporta as pressões da vida (afetos penosos) apenas se entristecendo.

p. 50

- A teoria da angústia mais sistemática é apresentada no Rascunho E (Freud, 1894, p. 78-83). Nele, a angústia é colocada como o produto da tensão sexual física que aumenta e não consegue ser revertida em um afeto sexual psíquico. No esquema hipotético de Freud, existem duas esferas: a somática e a psíquica. A excitação chega sempre pela via somática (ligada à percepção externa e interna) e deve atingir um certo limiar (soma) para ser transcrita na esfera psíquica (como uma descarga). O limite sendo alcançado, os elementos psíquicos oferecem à excitação sexual somática ligações para que ela se transforme em libido (afeto sexual anexado a certa representação erótica). Quando por algum motivo a soma atinge o limiar mas é impedida de se transformar em libido, ela permanece na esfera somática e se transforma em angústia.

      Quando há um desenvolvimento abundante de tensão sexual física, mas esta não pode ser transformada em afeto pela elaboração psíquica - por desenvolvimento insuficiente da sexualidade psíquica; ou por causa da tentativa de repressão desta última (defesa); ou pro estar ela em decadência; ou por causa da alienação habitual entre a sexualidade física e a psíquica - a tensão sexual se transforma em angústia. Assim, um certo papel é desempenhado nisso pelo acúmulo da tensão física e pelo impedimento da descarga na direção psíquica. (id. ibid., p. 82).

- (Freud optou pela primeira hipótese do Rascunho A, p. 45)

p. 60

- O mecanismo de defesa atua sobre as representações eróticas, e apenas mais tarde Freud poderá esclarecer isto melhor. nota 34 - Há uma carta, na qual ele comenta que, quando chega a um determinado nível, toda repugnância moral é superada (no caso ele se refere à preparação para o ato sexual).

- (repugnância moral superada em Freud não teria algo a ver com suspensão da moral em Kierkegaard?)

p. 63

       Hasta entonces se le antojaba que era bastante fuerte para prescindir del apoyo de un hombre; ahora se apoderaba de ella un sentimiento de su debilidad como mujer, una añoranza de amor en la que, según sus propias palabras, la solidez de su ser empezaba a derretirse.    (AE II, p. 168).

- Novamente aparece a idéia de debilidade, como a idéia de força/fraqueza do eu em relação às representações contrastantes penosas (artigo de 1892, sobre o tic de Emmy). Aqui, a sensação de debilidade é o resultado de perdas reais e da insatisfação do desejo de substituir o que foi perdido. O sentimento de debilidade por não conseguir satisfazer o desejo é um ponto comum entre tristeza normal e histeria. Ambas representam um período onde há sofrimento e ânsia pela resolução de um desejo que fica em suspenso.

p. 65

- A tristeza é mais um entre outros termos usados para descrever os sentimentos (resultado do trânsito dos afetos sobre as representações) ou os chamados estados de ânimo. Todavia Freud a destaca, estabelecendo-a como um termo de comparação entre normal e patológico. E podemos designar por tristeza, todo resultado do trânsito de afetos penosos que não produzam nenhum tipo de sintomas. A idéia ainda que não chegue a ser um conceito tem uma função precisa no projeto teórico de Freud.

p. 79

- O objeto desiderativo (seu registro psíquico) possui, assim como o registro do objeto perceptivo, duas partes: uma fixa, que Freud chama de coisa, e é representada no núcleo, e uma parte variável, que é o predicado da coisa, representado no manto. As

p. 80

duas partes formam uma seqüência associativa primária, ou seja, foram associadas por simultaneidade. Com a função secundária, há a formação de uma seqüência associativa secundária, ou seja, a associação se dá por contigüidade.

- O objeto, segundo a “filosofia” do Projeto, no máximo pode ser inferido, ele é o resultado de uma crença que o aparelho produz na existência de um objeto externo. O mundo é objeto de crença, as expectativas, surgidas a partir da re-ocupação da vivência de satisfação, criam em nós a sensação de que assim como houve sensações vividas, novas sensações poderão ser experienciadas, ou seja, sensações possíveis. A crença estabelece uma certa perenidade, oposta à fugacidade de nossas sensações. nota 43 - Posteriormente, em um artigo intitulado Sobre a transitoriedade (1915), Freud coloca que as expectativas criam em nós uma pretensão à eternidade (BN, II, p. 2118). As expectativas nada mais são que o desejo de que a satisfação seja novamente encontrada ou vivida. E, justamente, por nossas sensações serem momentâneas, limitadas no tempo, que possuem tanto valor para nós. A sensação comporta valor de ser raro no tempo (id. ibid).

p. 81

- O caso relatado é o de uma jovem que se apaixonou por um homem e acreditou que ele também lhe dirigia o mesmo afeto. Até que um dia, descobre que o homem a visitava por outro motivo, ele não estava apaixonado por ela. A partir desse momento, o momento de sua desilusão, a jovem começa a se defender da desilusão produzindo

p. 82

sintomas conversivos. E por ocasião de uma festa de sua família, ela se convence que ele virá; e ao fim do dia, quando ela pode constatar que ele realmente não vem, a jovem alucina: o vê chegar, ouve sua voz, e corre para recebê-lo. “A partir desse momento vive por um espaço de dois meses em um ditoso sonho: o homem está sempre a seu lado, não a abandona um só instante (...)” (BN I, p. 176).Essa jovem sofreu uma desilusão mas não pode suportar os seus efeitos (sofrimentos), com a alucinação ela não se entristece (“encontra-se feliz e tranqüila”. Id. ibid.), mas também, perde o contato com a realidade externa.

- (a alucinação impede o indivíduo de entristecimento e desliga-o da realidade)

- Segundo: o aparelho pode se valer do pensamento, criando a partir do estado de desejo, um anseio, que poderíamos entender como um segundo tempo do desejo, tempo em que a atenção do eu ocupando todas as percepções para encontrar a desejada, levanta todos os objetos semelhantes e que mantêm relações associativas com aquele procurado. Nesse momento, se o nível de Q aumentar muito, algum tipo de descarga ocorrerá (não a ação específica) como o choro, a fala, etc. O objeto na percepção não é encontrado. Esse momento de busca do processo secundário é análogo à descarga alucinada no processo primário.

- Aqui, ainda que o pensamento continue seu trabalho, tem-se algumas possibilidades: ou a re-ocupação dessa vivência de satisfação passa a funcionar como uma vivência de dor, estabelecendo uma vivência dolorosa; ou a situação da morte de alguém amado em si significa uma erupção de Q externa no sistema perceptivo, constituindo-se uma vivência de dor com um eu desenvolvido. Parece mais coerente, ao que Freud propõe, a primeira hipótese, visto que o problema do luto advém do desejo

p. 83

pela pessoa amada e perdida. Se o morto não fosse amado (desejado), ele não significaria um aumento de Q em y. O luto é decorrência de uma necessidade interna. A quantidade interna está relacionada à vivência de satisfação, e a quantidade externa, à vivência de dor.

- Como Freud ainda não estabeleceu uma associação entre as duas vivências, elas correm paralelas e, teoricamente, não se encontram. Essa falta de ligação entre ambas é um limite para uma conclusão em nossa análise. Além disso, no Projeto, Freud reduziu a extensão do conceito de afeto, confinando-o à recordação da vivência dolorosa, e que antes (nos Estudos, e em outros textos de 1894 e 1895), o termo referia-se a todo aumento ou movimento da excitação na esfera psíquica. O luto é um fenômeno afetivo e doloroso, mas advindo de um estado de anseio.

- Seria preciso, para continuarmos a análise, de uma explicação possível para justificar uma transformação do objeto representado. Pois nesse momento, quando ocorre a perda do objeto real, seu representante psíquico, o objeto de desejo, torna-se, ao mesmo tempo, um objeto hostil, no sentido de que é um objeto que ao ser investido aumenta o nível de Q por não ser mais possível realizar a descarga através dele. Ao mesmo tempo, está em andamento um processo perceptivo, que corresponde ao sujeito tomar consciência que o objeto real não existe. Essa percepção também deverá ser registrada em y do manto, uma representação da ausência. Apesar que o próprio registro já significa de alguma forma a ausência, pois o registro não é o próprio objeto.

- O que a atenção pode encontrar é: ela já está ocupando o registro do objeto do desejo (núcleo-manto) e encontra as representações da percepção (j-manto), que como o

p. 84

pos-doc Michele

objeto está ausente não deve estar investida. Também, é necessário que haja uma primeira vivência da ausência, uma experiência fundadora, pois este modelo de aparelho é empirista: não há nada registrado em y que não advenha de uma vivência anterior relacionada a uma sensação corporal gerada.

- Se fosse possível relacionar as duas vivências, o ponto de encontro inicial entre elas deveria ser o registro dessa representação do ausente. A atenção e o juízo em seu trabalho de busca, encontraria como única representação possível de ser ocupada uma tal representação, pois ela guardaria algum tipo de semelhança com a imagem do objeto desejado no manto, e traria um traço novo indicativo da ausência. Como não há como comprovar o que afirmamos, não passa de hipóteses especulativas para podermos continuar a análise.

(- ausente é o que não está mais presente como fonte de sensação à via corporal

- ausente é o já sentido, registrado em y-manto

- a crença não é uma tentativa de representação do (ainda)-não-presente, que é igual a ausente?

- a crença não poderia ser também uma tentativa de representação do (já)-não-presente, que é igual a ausente?)

p. 90

- Na carta 39- nota 46 - Datada de 01/01/1896. Freud, 1986, p. 159-163. - Freud reordena as posições dos três sistemas de seu aparelho. Com essa nova organização, a Q externa não atinge y, através de j, mas apenas recebe notícia de que determinada percepção impressionou w (a consciência). A excitação de Y é exclusivamente interna. Se na esfera psíquica só circula Q endógena, não há mais com sustentar a teoria do trauma, e assim, o luto não poderia mais ser tomado como situação traumática na explicação dos sintomas. Também, não poderíamos continuar a considerar a hipótese, que levantamos no item anterior, do luto corresponder a uma vivência de dor com um eu constituído, inundando-o com uma grande Q externa. Sendo a Q sempre interna, as excitações, o anseio e o desprazer gerados, no período de luto, advém de fonte interna.

- O fato da perda do objeto ser um fato da realidade impressiona a consciência, e ela por sua vez, pode orientar a atenção em para y uma determinada recordação, não introduzindo nenhum valor quantitativo no aparelho. A dicotomia Q externa/Q interna, foi substituída pelo conflito entre a condução quantitativa e os processos estimulados pelas sensações conscientes (qualidade). A tristeza pode ser um sinal desse conflito: de um lado o estado de anseio (Q) e, de outro, a informação consciente de que o objeto está ausente. Esse conflito será posteriormente mantido através da oposição entre energia livre (desvinculada) e energia ligada (vinculada em processos associativos). A produção da dor fica referida a Q interna.

p. 91

       “(...) a suspensão da adição e um afluxo contínuo [de Q] pára y  por algum tempo. Certos neurônios  w ficam então hipercatexizados e produzem um sentimento de desprazer, fazendo também com que a atenção se fixe nesse ponto”.  (Freud, 1986, p. 162)

- A consciência passa a ser um órgão de dupla face: recebe impressões de exterior, e do interior do aparelho (prazer/desprazer). Conscientizar-se de algo implica, não mais nas propriedades da percepção em si, mas dos princípios associativos que vigoram entre os sistemas. Fato que nós praticamos deduzimos quando colocamos que a vivência de luto dependia das associações feitas à representação (interno) do objeto perdido, e não da morte em si (externo). Assim, a percepção da ausência do objeto amado na realidade, quando tornada consciente, já se encontra vinculada aos diversos laços associativos que a representação psíquica de tal objeto possui.

p. 95

- Quando Freud equivale sintoma e sonho, prazer e desprazer sendo gerados pela mesma fonte: “Os sintomas, tal como os sonhos, são realizações de um desejo” (Freud, 1986 [31/05/1897], p. 252); não há mais o impedimento que encontramos no Projeto. A dicotomia foi superada, e um estado doloroso ou afetivo pode decorrer de um estado de desejo, bem como um desejo poderá ser recalcado.

- Daqui em diante, é o desejo, ou melhor, a libido, o afeto responsável pela tristeza. A tristeza é o composto e a exteriorização do movimento da libido insatisfeita ou acumulada (afeto penoso), advinda de uma representação de objeto perdida, sendo que tal objeto pode ser qualquer coisa, pessoa, ideal, ou idéia (fantasias) amada que o sujeito se vê, repentinamente, obrigado a abandonar por questões externas, que independem dele (destino), ou por questões de sua economia interna (como foi o caso de Elizabeth abandonar o seu primeiro amor). Ela é, então, determinada pelos estados contemporâneos da libido, podendo ser uma de suas muitas expressões.

p. 98

- No primeiro esboço, o Rascunho A - nota 49 omitida por mim - , Freud levanta um série de problemas sobre as neuroses sexuais (neurose de angústia e neurastenia), define os grupos de observação de ambas as categorias, e levanta algumas hipóteses sobre o funcionamento dessas. Ele se pergunta sobre que entra na etiologia da depressão leve (Verstimmung) e a define como uma das formas de manifestação do ataque de angústia, com duração de dias ou semanas. Ele supõe que, da mesma maneira que a angústia assume a forma de uma fobia (medo), o ataque de angústia pode assumir a forma de um transtorno de humor, quando o sujeito fica deprimido e amuado. Essa definição permanece até 1895, com a publicação do artigo Neurastenia e neurose de angústia (op. cit.), no qual o autor mantém a definição de depressão.

- Nos Estudos, pudemos observar que Freud relacionou o transtorno de humor ao esgotamento; no Rascunho A, ele afirma que nem os excessos simples nem a sobrecarga de trabalho são fatores etiológicos para a depressão e a neurose de angústia. O próximo rascunho é o B (08/02/1893, op. cit.), que traz a fórmula etiológica sexual. O excesso e a sobrecarga são tomados com influências tóxicas, ou fatores de segunda ordem, que só

p. 99

podem funcionar patologicamente quando em presença de um fator de primeira ordem, sempre sexual.

- A depressão leve, sintoma da neurose de angústia, é análoga à tristeza nos processos normais, tóxicos. A tristeza é uma intoxicação por um afeto penoso simples, enquanto que a depressão é uma intoxicação por angústia com um fator sexual presente. É importante distinguir os três elementos envolvidos: o afeto penoso interno (variável e qualificado por seu acúmulo), o elemento sexual, e a manifestação afetiva desse movimento psíquico sob a orientação do afeto, e que nada mais é que o estado de ânimo apresentado externamente pelo sujeito, e dependente do vínculo que o afeto fará com determina representação psíquica (como é o caso das representações contrastantes penosas) e da presença/ausência do elemento sexual.

p. 102

- Omne animal post coitum triste. (Freud, 1986, p. 94) - MASSON, J. M. A correspondência completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess (1887-1904). Rio de Janeiro: Imago, 1986.

p. 106

       Alguns conhecimentos simultaneamente adquiridos, sobre o mecanismo da melancolia podem ser intercalados neste ponto [transformação da tensão somática em angústia]. De modo,  particularmente freqüente, os melancólicos são anestésicos. Não têm nenhum desejo de coito (e nenhuma sensação ligada a ele), mas têm uma grande ânsia de amor em sua forma psíquica - uma tensão erótica psíquica, poder-se-ia dizer; quando esta se acumula e permanece insatisfeita, surge a melancolia. Esta, portanto, seria a contrapartida da neurose de angústia.

       Quando há acúmulo de tensão sexual física - neurose de angústia.

       Quando há acúmulo de tensão sexual psíquica - melancolia.   (Freud, 1986, p. 80)

p. 107

- A segunda parte (do Rascunho G) são os pontos teóricos que Freud considera seguro, e os estabelece como pressupostos para as demais considerações. O primeiro ponto é o que mais nos interessa, pois nele é estabelecido como o afeto penoso, próprio da afecção melancólica, o luto (Trauer). E o luto será definido como o anseio (Sehnsucht) por algo perdido (verlorenen). Na melancolia não se trata da perda de alguém. Antes, trata-se de uma perda (Verlust) na vida psíquica do sujeito. Em termos sexuais e psíquicos, esta afirmação corresponde a uma perda de libido: “Não seria tão mau, portanto, partir da idéia de que a melancolia consiste num luto [tristeza] pela perda da libido” (Freud, 1986, p. 99).

- (perda da libido: perda na vida psíquica: perda simbólica: perda da capacidade de amar/de prazer = perda da libido)

p. 110

- Sempre que Freud encontra problemas na continuação de seu raciocínio teórico, ele recorre à clínica, como um apoio, uma explicação provisória, mas não suficiente. E é isso o que ele faz aqui: usa como argumento para relacionar anestesia e melancolia a freqüência clínica observada de mulheres anestésicas que desenvolvem melancolia.

- Na sexta e última parte, Freud descreve os efeitos da melancolia externamente: inibição psíquica com empobrecimento pulsional e dor a respeito dele. E internamente:

       Podemos imaginar que, quando o grupo sexual psíquico depara com uma perda muito grande no volume de sua excitação, é possível que ocorra um retraimento, por assim dizer, para a esfera psíquica, que produz um efeito de sucção sobre os volumes de excitação adjacentes. Os neurônios associados têm que abandonar sua excitação, o que produz dor. Desfazer associações é sempre doloroso; instala-se, como que através de uma hemorragia interna, um empobrecimento da excitação (no estoque livre dela), que se faz sentir nos outros impulsos e funções

p. 111

pulsionais. Como na inibição, esse retraimento age como uma ferida, de maneira análoga à dor (...).    (Freud, 1986, p. 104)

- Nesse que é o principal trecho deste manuscrito, é muito interessante e original a forma como Freud descreve as conseqüências internas da perda de excitação. A dor é decorrente de uma retirada abrupta de energia interna e elaborada, de quebra no fluxo de excitação que mantém investidos os complexos representacionais. Com a diminuição no fluxo, o grupo psíquico precisa buscar excitação onde ela resta, e é essa busca (anseio) que causa uma invaginação no psiquismo. De acordo com o Projeto (1895), o reservatório de libido para situações de emergência é o eu, formado por um grupo de neurônios associados entre si, ou seja, bastante facilitados e constantemente ocupados pela libido. Ocorrendo a perda libidinal, é o reservatório que estará sendo assaltado.

- Como podemos notar não há na melancolia representações hiperinvestidas, como acontece nas neuroses de defesa, antes parece que nela tudo funciona ao contrário. As representações são sub-investidas, e até desinvestidas, acarretando dor; em outras neuroses o que é penoso ao sistema é o acréscimo de excitação que não encontra descarga (por exemplo, as representações desprazíveis), na melancolia há uma diminuição, e até parece que ocorre como que uma descarga interna e ao avesso, que não gera prazer. A ferida psíquica, este buraco por onde a libido escoa, só poderia ser um neurônio ou um complexo deles, pois não há outra estrutura descrita no aparelho a que possamos recorrer. A hemorragia de libido lembra uma irrupção ao contrário, algo escorrendo por dentro do psiquismo (seu avesso). E ainda que uma captação de

p. 112

emergência seja feita no estoque de libido, parece que isso não reverte o quadro. E o mais contraditório, o princípio de constância não se sai melhor com este desinvestimento, pois o desprazer e a dor continuam.

- Temos a impressão que a única forma dessa passagem tornar-se compreensível e coerente é pensar que não há uma diminuição na produção de excitações, mas sim que não há energia que resolva por conta desta ferida aberta no meio do grupo sexual psíquico. Como se fosse uma grande conta bancária negativa e a quantia de que se dispões para cobri-la não pagaria os juros. E voltamos à pergunta: para onde vai essa hemorragia? Pois parece que não vai nem para o somático, nem para o psíquico, visto que ela desfaz as associações. A libido está sendo investida em uma representação que não tem fundo, ou uma representação-buraco...

- Nessas especulações, uma coisa é certa: o que será afetado na esfera psíquica, ou no sistema y é o reservatório, o eu. Além disso, a hipótese freudiana de que a melancolia se trata de uma perda de libido, acaba vinculando os desenvolvimentos da afecção ao desenvolvimento do conceito de libido.

- (A propósito da representação que não tem fundo, ou uma representação-buraco...(p. 112) duas idéias: 1 - a representação sem fundo poderia aqui ser entendida na ótica da crise do sentido desencadeado pela primazia do universo da poiesis - texto do Lima Vaz - como representação a partir do universo que carece de sentido; 2 - representação-buraco (negro) como na astrofísica: o buraco negro suga o que se aproxima de seu alcance gravitacional e este mesmo movimento de sucção mantém (ou manteria) a hemorragia - entendida como o deslocamento das coisas e seus predicados (p. 79) tornados “feridas psíquicas”;

- O buraco negro é um escoamento ao avesso pois está dentro de um todo (o universo) - pergunto: o psiquismo poderia ser considerado um universo para o eu? E o mundo real, também não seria um universo para o eu? Seria correto dizer que psiquismo e mundo real, realidades interna e externa, são universos para o eu porque lhe oferecem coisas e predicados (objetos) de representação? Se as respostas forem afirmativas, imagino que esse escoamento hemorrágico de libido poderia funcionar como o mecanismo da crença (p. 80) que, se entendi bem, funciona como um artifício de manutenção prazerosa ao eu na e da realidade que está inscrita no tempo. Do mesmo modo que a crença incita à eternidade (nota 43), a hemorragia da libido abriria espaço à produção (?) de sensações contrárias à anestesia para manutenção do aparelho.

- A hemorragia da libido, como a crença, é resposta do aparelho a esta pulsão de manutenção de si mesmo. O curioso é que esta manutenção aconteça por sub-investimento ou des-investimento (fico me perguntando se esta resposta no caso da hemorragia da libido não estaria velando uma outra pulsão: a da destruição - thanatos?). Pergunto de novo: não seria a hemorragia da libido um artifício do aparelho psíquico para equilibrar os dois universos? A crença, de certa forma, não estaria também estruturada neste movimento de escoamento?, um escoamento, de expectativa, para a eternidade? A questão é: para onde a hemorragia da libido faz escoar, como você coloca na p. 112: “...não vai nem para o somático, nem para o psíquico, visto que ela desfaz as associações”.

- Esta volta toda é para relembrar um assunto que me parece já discutimos juntos, naquele almoço na uniesp: a questão do universo paralelo - “Como Freud ainda não estabeleceu uma associação entre as duas vivências, elas correm paralelas e, teoricamente, não se encontram. Essa falta de ligação entre ambas é um limite para uma conclusão em nossa análise.” (p. 83) Parece-me claro que as representações em torno da eternidade justificam o desejo de permanência do eu no tempo, no qual há o desprazer. Que termo ou conceito poderia ajudar na representação deste onde ao qual a hemorragia escoa?

- representação que não tem fundo, representação-buraco: carece de fundamentação poiética - sentido

- “properspectiva”:

    - à medida que o eu avança ou quer avançar no tempo, como pretensão de registro no futuro possível:

                             crença

              *

             eu            eternidade

 

    - a hemorragia da libido ou invaginação no psiquismo abre uma trajetória de registro no esquecimento (buraco) da memória y:

              invaginação

                                         *

              hemorragia         eu

              da libido                                                    eternidade ao avesso? = findação? finitude?

- pergunto (hipótese): tanto crença quanto invaginação não seriam (ou poderiam ser) movimentos ou impulsos que lançam (projetam e escoam) representações no nada, de onde se pode criar ou re-criar?)

p. 124

- A tristeza é uma das reações ao desamparo do homem frente à Natureza e o Destino. Ela nos lembra de nossa condição de origem - desamparo e dependente, e revela as dificuldades que podem ser encontradas em nossas relações com a realidade. A constatação da qual a tristeza é sinal - que há desejos que permanecerão insatisfeitos - torna necessária que cultura seja produzida, tanto como um meio para lidar com a carga de anseio em excesso (como um refúgio), quanto para se proteger do desamparo real de nossa raça. E, ao mesmo tempo, ela também é a prova de que a civilização não nos bastará.

- Para evitar o sofrimento, é necessário que o homem consiga um certo domínio sobre suas fontes endógenas (pulsionais), que pode ser alcançado perseguindo uma moderação na vida pulsional sob o governo de instâncias psíquicas superiores submetidas ao princípio de realidade. Ainda uma outra forma, os deslocamentos da libido sobre o aparelho psíquico dão grande flexibilidade a seu funcionamento. Reorientar os fins pulsionais de tal forma a elidir a frustração do mundo exterior, é o que Freud chama de sublimação pulsional. Em Mal estar na cultura, Freud aproxima da

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sublimação artística o trabalho manual, ou qualquer outro tipo de trabalho, pois nenhuma outra técnica liga o sujeito tão fortemente à realidade, quanto a acentuação do trabalho.

- O sofrimento, a tristeza levam à tendência do homem psicanalítico, como diz Herrmann (1991), a se tornar independente do mundo, buscando uma satisfação em processos internos. “O homem psicanalítico deseja bastar-se” (id., ibid, p. 236). Herrmann vai definir o luto como relutância humana em se desprender do objeto original, que corresponde à perda da fusão original consigo mesmo.

        A condição pura do luto primordial, sua manifestação dá-se na expectativa de trânsito e é o que chamamos de ser na brecha entre representações.   Herrmann, 1991, p. 238)

- E o que falamos neste trabalho não é exatamente da dor e da tristeza envolvida nessa expectativa de trânsito e até mesmo no início do trânsito, quando o deslocamento da libido já se iniciou? A conquista ou re-conquista da fusão impossível com a própria imagem autobastante está voltada ao fracasso. Porém Freud nos alerta a não desanimar, ainda que o fracasso seja incerto:

       El designio de ser felices que nos impone el principio del placer es irrealizable, mas no por ello se debe - ni se puede - abandonar los esfuerzos por acercarse de cualquier modo a su realización.   (BN, III, p. 3029).

- Assim, sendo a realidade sempre mais forte, e a felicidade, algo profundamente subjetivo, e que diz respeito à história individual, aos desejos infantis; nós temos

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basicamente duas saídas: ou desenvolvemos estratégias para evitar o sofrimento ou desprazer, e/ou nos aferramos à parte positiva da felicidade realizando alguns desejos, arriscando sofrer.

- Refletindo sobre tudo o que acabamos de ler e de dizer sobre Freud, como poderemos interpretar esta passagem dele, em uma de suas últimas cartas a uma amiga querida?

       “No momento em que nos perguntamos sobre o valor e o sentido da vida, estamos doentes, pois objetivamente tais coisas não existem. Ao fazê-lo, apenas admitimos possuir um quê de libido insatisfeita, a que algo mais deve ter acontecido, uma espécie de fermentação que conduz à tristeza e à depressão”.  (Carta de Freud a Marie Bonaparte, 13/08/1937) - nota 57 - Esta carta encontra-se no livro Sigmund Freud e o Gabinete do Dr. Lacan. 1990, p. 129.

 

Referências:

HERRMANN, Andaimes do real. SP: Brasiliense, 1991.

FREUD. - Mal estar na cultura; - Luto e melancolia; - Introdução ao narcisismo; - Inibição, sintoma e angústia; - Três ensaios sobre a teoria da sexualidade; - Totem e tabu; Mal estar na civilização; - O futuro de uma ilusão; - Sobre a transitoriedade (artigo); Estudos sobre histeria;

 

RIBEIRO, Renato Janine. Que saudade da presença... IN O Estado de São Paulo, Aliás, p. J6, domingo 3 de fevereiro de 2013.

 

RIBEIRO

Área:TIC

Tema(s): presença, ausência, escrita, leitura, internet

 

RIBEIRO, Renato Janine. Que saudade da presença... IN O Estado de São Paulo, Aliás, p. J6, domingo 3 de fevereiro de 2013.

 

 

p. J6

 

 

- escrita e poder

 

- escrita e mentira

- presença x ausência

- representação e falsificação

- escrita e manipulação

- citação Derrida

- citação Rousseau

- citação Lévi-Strauss

- comunicação e quebra de limites sociais

 

 

 

 

 

 

 

- hipoexperiência

- experiência e diversidade

 

- vício leitura e internet

- “Mas isso é mesmo uma novidade? Porque o distanciamento de quem fisicamente está próximo é um tema antigo na filosofia. Ele remonta pelo menos a Platão, no século 5º antes de Cristo.

Em seu diálogo Fedro, o filósofo grego conta que o ministro Tot apresentou ao faraó Tamus uma série de invenções. A escrita, disse Tot, permitiria guardar a memória do passado e transmitir mensagens a distância, superando as barreiras do tempo e do espaço. Mas o faraó a condena: ele permite a mentira, a falsidade. Assim, desde a antiguidade - comenta Jacques Derrida - se valoriza a presença e se desconfia da ausência, da distância, da representação. Representar é tornar presente o ausente, é fazer que o morto ou o longínquo esteja conosco; o problema é que assim é fácil falsificá-lo. É o que dirá outro filósofo, Rousseau, no século 18: quando você fala com alguém na sua frente, os gestos e o olhar enriquecem a comunicação; já um texto escrito pode ser manipulado à vontade.

Os índios brasileiros também entram nessa notável querela. Em 1938, Lévi-Strauss, que lecionava na USP e ainda não se tornara o importante antropólogo que foi, esteve entre os nhambiquaras. O chefe da tribo notou que o branco escrevia. Quando Lévi-Strauss encerrou a estada entre eles e deu os presentes de praxe, o chefe pediu para distribuí-los - e pegou uma folha de papel, fingindo ler nela o nome de cada um e o presente a ele destinado. O antropólogo ficou fascinado: um analfabeto intuía a essência da escrita - que segundo Lévi-Strauss é fundar um poder forte, fugir ao diálogo, suprimir a igualdade, em suma, dar um golpe de Estado na sociedade.”

- escrita, imprensa e internet como substituição da presença

- “Sem dúvida essas formas de comunicação permitem que as pessoas saiam de seus recantos fechados. Um homossexual numa aldeia conservadora vive um inferno. Pelo acesso à rede, pode se fortalecer graças à solidariedade de amigos a distância.”

- “Perdemos muito como declínio da presença? Seguramente. A presença, mesmo quando é pobre, é de carne e osso. Nela há um cerne que nada pode substituir.”

- “Isso não significa que necessariamente a presença traga a verdade, e a distância a mentira, como queriam Platão, Rousseau e Lévi-Strauss. Aliás, é exatamente nesse ponto que Derrida os contesta, em sua Gramatologia; mas os pontos seguintes Derrida não aborda.

- “Mas qual é o grande problema dessa, digamos, hipoexperiência? É ser uma experiência pobre. o essencial na vida é experimentar. Não há palavra que resuma melhor a capacidade criativa do ser humano. Ora, experiência exige diversidade. Quem passa a vida lendo também se limita, tal como quem leva a vida na balada ou na praia.”

- “Há experiências que enriquecem, outras que atrofiam. Mas geralmente o fato de ter experiências diferentes ou mesmo opostas já é enriquecedor. E por isso mesmo o problema que muitos veem na internet não é apenas ela: é o fato de se tornar um vício, uma adição. Não temos registros que nos digam se a escrita, quando surgiu, gerou seus viciados, mas sabemos que a imprensa, sim, ou pelo menos a leitura do impresso: Dom Quixote e mais tarde Madame Bovary são os grandes exemplos.”

 

 

 

PRADO, Adélia. A duração do dia. Rio de Janeiro: Record, 2010.

 

PRADO

Área: poesia

Tema(s): lírica, cotidiano,

 

PRADO, Adélia. A duração do dia. Rio de Janeiro: Record, 2010.

 

p. 9

Tão bom aqui

 

Me escondo no porão

para melhor aproveitar o dia

e seu plantel de cigarras.

Entrei aqui para rezar,

agradecer a Deus este conforto gigante.

Meu corpo velho descansa regalado,

tenho sono e posso dormir,

tendo comido e bebido sem pagar.

O dia lá fora é quente,

a água na bilha é fresca,

acredito que sugestiono elétrons.

Eu só quero saber do microcosmo,

o de tanta realidade que nem há.

Na partícula visível de poeira

em onda invisível dança a luz.

Ao cheiro de café minhas narinas vibram,

alguém vai me chamar.

Responderei amorosa,

refeita de sono bom.

Fora que alguém me ama,

eu nada sei de mim.

 

p. 30

História que me contaram (escrita criativa: transformar poema em prosa)

 

Vozes, lamparinas

e o cheiro de querosene da pobreza.

O órfão de um ano debatendo-se

choramingava em seu mar de fezes.

Deus está me mostrando o que será minha vida,

gemeu o viúvo,

arrepanhando o lençol por suas pontas.

Teve depois um sonho:

chegava em casa com uma nova mulher

e viu, da porteira, os filhos indo embora.

Ficou tão abalado, chorou tanto

que fez uma promessa: nunca mais casar-se.

Tinha beleza e fogo.

Mesmo sendo na história

me apaixonei pelo homem,

mesmo sem esperança.

 

p. 37

Alvará de demolição

 

O que precisa nascer

tem sua raiz em chão de casa velha.

À sua necessidade o piso cede,

estalam rachaduras nas paredes,

os caixões de janela se desprendem.

O que precisa nascer

aparece no sonho buscando frinchas no teto,

réstias de luz e ar.

Sei muito bem do que este sonho fala

e a quem pode me dar

peço coragem.

 

p. 41

Harry Potter

 

Quando era criança

escondia-me no galinheiro

hipnotizando galinhas.

Alguma força se esvaía de mim,

pois ficávamos tontas, eu e elas.

Ninguém percebia minha ausência,

o esforço de levantar-me pelas orelhas,

tentando o maravilhoso.

Até hoje fico de tocaia

para óvnis, luzes misteriosas,

orar em línguas, ter o dom da cura.

Meu treinamento é ordenar palavras:

Sejam um poema, digo-lhes,

não se comportem como, no galinheiro,

eu com as galinhas tontas.

 

p. 55

Sem saída

 

Escreve-se para dizer

sou mais que meu pobre corpo.

Os óculos do escritor o atestam,

lentes que para dentro olham,

sua foto contra a estante,

sempre flagrada a meio desalinho.

Que imensa pedreira aquele monte de livros,

indiferença treinada para esconder sofrimento.

Falsamente humilde, não escreveria mais,

mortal pecado,

pretensão de poder reservada ao divino.

Só lhe resta posar

sem corrigir os ângulos destruídos

à animadora legenda:

O escritor no seu gabinete.

 

p. 73

Alcateia

 

Você reza demais, Luzia.

Que aborrecimento esta sua pressa

em fugir pro jardim com seu rosário.

Quem me dera, mesmo, dia e noite rezar,

estou oca de medo.

É admirável que com palpitações e boca seca

eu suba escada para ver do muro

quem fala tanto palavrão.

Rezar demais é ter rezado nada.

Invejo o bruto,

o que enfia tudo no de todo mundo

e não tem medo de Deus.

Quem me dera os lobos fossem fora de mim,

bastava um pau e os afugentaria.

Mas seus fantasmas é que uivam inalcançáveis.

Só a oração os detém,

a que ainda não sei como fazer.

 

p. 95

O enfermo

 

O doente que ir-se

para sua casa,

para a cama onde está

e não reconhece mais.

Tenho a fé abalada é o que diz

num espasmo de lucidez.

Seu toque, como o dos cegos,

imperativa, sua voz

de criança gentil contrariada.

Segurou minha mão por uma hora inteira.

Não tem santos estigmas, só escaras

e a vida que vive nele

e o faz brandir, profeta no seu jejum:

ter nascido já é lucro.

 

p. 99

Consanguíneos

 

Não há culpados para a dor que eu sinto.

É Ele, Deus, quem me dói pedindo amor

como se fora eu Sua mãe e O rejeitasse.

Se me ajudar um remédio a respirar melhor,

obteremos clemência, Ele e eu.

Jungidos como estamos em formidável parelha,

enquanto Ele não dorme eu não descanso.

 

 

TELLES, Lygia Fagundes. Pomba enamorada - ou uma história de amor e outros contos escolhidos. Porto Alegre: L&PM, 2002. (Coleção L&PM Pocket vol. 150)

  TELLES Área: contos Tema(s): contos de amor, amor platônico, contos com paralelismo, contos de circuito fechad...