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RIBEIRO, Renato Janine. Que saudade da presença... IN O Estado de São Paulo, Aliás, p. J6, domingo 3 de fevereiro de 2013.

 

RIBEIRO

Área:TIC

Tema(s): presença, ausência, escrita, leitura, internet

 

RIBEIRO, Renato Janine. Que saudade da presença... IN O Estado de São Paulo, Aliás, p. J6, domingo 3 de fevereiro de 2013.

 

 

p. J6

 

 

- escrita e poder

 

- escrita e mentira

- presença x ausência

- representação e falsificação

- escrita e manipulação

- citação Derrida

- citação Rousseau

- citação Lévi-Strauss

- comunicação e quebra de limites sociais

 

 

 

 

 

 

 

- hipoexperiência

- experiência e diversidade

 

- vício leitura e internet

- “Mas isso é mesmo uma novidade? Porque o distanciamento de quem fisicamente está próximo é um tema antigo na filosofia. Ele remonta pelo menos a Platão, no século 5º antes de Cristo.

Em seu diálogo Fedro, o filósofo grego conta que o ministro Tot apresentou ao faraó Tamus uma série de invenções. A escrita, disse Tot, permitiria guardar a memória do passado e transmitir mensagens a distância, superando as barreiras do tempo e do espaço. Mas o faraó a condena: ele permite a mentira, a falsidade. Assim, desde a antiguidade - comenta Jacques Derrida - se valoriza a presença e se desconfia da ausência, da distância, da representação. Representar é tornar presente o ausente, é fazer que o morto ou o longínquo esteja conosco; o problema é que assim é fácil falsificá-lo. É o que dirá outro filósofo, Rousseau, no século 18: quando você fala com alguém na sua frente, os gestos e o olhar enriquecem a comunicação; já um texto escrito pode ser manipulado à vontade.

Os índios brasileiros também entram nessa notável querela. Em 1938, Lévi-Strauss, que lecionava na USP e ainda não se tornara o importante antropólogo que foi, esteve entre os nhambiquaras. O chefe da tribo notou que o branco escrevia. Quando Lévi-Strauss encerrou a estada entre eles e deu os presentes de praxe, o chefe pediu para distribuí-los - e pegou uma folha de papel, fingindo ler nela o nome de cada um e o presente a ele destinado. O antropólogo ficou fascinado: um analfabeto intuía a essência da escrita - que segundo Lévi-Strauss é fundar um poder forte, fugir ao diálogo, suprimir a igualdade, em suma, dar um golpe de Estado na sociedade.”

- escrita, imprensa e internet como substituição da presença

- “Sem dúvida essas formas de comunicação permitem que as pessoas saiam de seus recantos fechados. Um homossexual numa aldeia conservadora vive um inferno. Pelo acesso à rede, pode se fortalecer graças à solidariedade de amigos a distância.”

- “Perdemos muito como declínio da presença? Seguramente. A presença, mesmo quando é pobre, é de carne e osso. Nela há um cerne que nada pode substituir.”

- “Isso não significa que necessariamente a presença traga a verdade, e a distância a mentira, como queriam Platão, Rousseau e Lévi-Strauss. Aliás, é exatamente nesse ponto que Derrida os contesta, em sua Gramatologia; mas os pontos seguintes Derrida não aborda.

- “Mas qual é o grande problema dessa, digamos, hipoexperiência? É ser uma experiência pobre. o essencial na vida é experimentar. Não há palavra que resuma melhor a capacidade criativa do ser humano. Ora, experiência exige diversidade. Quem passa a vida lendo também se limita, tal como quem leva a vida na balada ou na praia.”

- “Há experiências que enriquecem, outras que atrofiam. Mas geralmente o fato de ter experiências diferentes ou mesmo opostas já é enriquecedor. E por isso mesmo o problema que muitos veem na internet não é apenas ela: é o fato de se tornar um vício, uma adição. Não temos registros que nos digam se a escrita, quando surgiu, gerou seus viciados, mas sabemos que a imprensa, sim, ou pelo menos a leitura do impresso: Dom Quixote e mais tarde Madame Bovary são os grandes exemplos.”

 

 

 

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