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PRADO |
Área: poesia |
Tema(s): lírica, cotidiano, |
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PRADO, Adélia. A
duração do dia. Rio de Janeiro: Record, 2010. |
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p. 9 |
Tão bom aqui Me escondo no porão para melhor aproveitar o dia e seu plantel de cigarras. Entrei aqui para rezar, agradecer a Deus este conforto gigante. Meu corpo velho descansa regalado, tenho sono e posso dormir, tendo comido e bebido sem pagar. O dia lá fora é quente, a água na bilha é fresca, acredito que sugestiono elétrons. Eu só quero saber do microcosmo, o de tanta realidade que nem há. Na partícula visível de poeira em onda invisível dança a luz. Ao cheiro de café minhas narinas vibram, alguém vai me chamar. Responderei amorosa, refeita de sono bom. Fora que alguém me ama, eu nada sei de mim. |
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p. 30 |
História que me contaram (escrita criativa: transformar
poema em prosa) Vozes, lamparinas e o cheiro de querosene da pobreza. O órfão de um ano debatendo-se choramingava em seu mar de fezes. Deus está me mostrando o que será minha vida, gemeu o viúvo, arrepanhando o lençol por suas pontas. Teve depois um sonho: chegava em casa com uma nova mulher e viu, da porteira, os filhos indo embora. Ficou tão abalado, chorou tanto que fez uma promessa: nunca mais casar-se. Tinha beleza e fogo. Mesmo sendo na história me apaixonei pelo homem, mesmo sem esperança. |
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p. 37 |
Alvará de demolição O que precisa nascer tem sua raiz em chão de casa velha. À sua necessidade o piso cede, estalam rachaduras nas paredes, os caixões de janela se desprendem. O que precisa nascer aparece no sonho buscando frinchas no teto, réstias de luz e ar. Sei muito bem do que este sonho fala e a quem pode me dar peço coragem. |
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p. 41 |
Harry Potter Quando era criança escondia-me no galinheiro hipnotizando galinhas. Alguma força se esvaía de mim, pois ficávamos tontas, eu e elas. Ninguém percebia minha ausência, o esforço de levantar-me pelas orelhas, tentando o maravilhoso. Até hoje fico de tocaia para óvnis, luzes misteriosas, orar em línguas, ter o dom da cura. Meu treinamento é ordenar palavras: Sejam um poema, digo-lhes, não se comportem como, no galinheiro, eu com as galinhas tontas. |
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p. 55 |
Sem saída Escreve-se para dizer sou mais que meu pobre corpo. Os óculos do escritor o atestam, lentes que para dentro olham, sua foto contra a estante, sempre flagrada a meio desalinho. Que imensa pedreira aquele monte de livros, indiferença treinada para esconder sofrimento. Falsamente humilde, não escreveria mais, mortal pecado, pretensão de poder reservada ao divino. Só lhe resta posar sem corrigir os ângulos destruídos à animadora legenda: O escritor no seu gabinete. |
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p. 73 |
Alcateia Você reza demais, Luzia. Que aborrecimento esta sua pressa em fugir pro jardim com seu rosário. Quem me dera, mesmo, dia e noite rezar, estou oca de medo. É admirável que com palpitações e boca seca eu suba escada para ver do muro quem fala tanto palavrão. Rezar demais é ter rezado nada. Invejo o bruto, o que enfia tudo no de todo mundo e não tem medo de Deus. Quem me dera os lobos fossem fora de mim, bastava um pau e os afugentaria. Mas seus fantasmas é que uivam inalcançáveis. Só a oração os detém, a que ainda não sei como fazer. |
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p. 95 |
O enfermo O doente que ir-se para sua casa, para a cama onde está e não reconhece mais. Tenho a fé abalada é o que diz num espasmo de lucidez. Seu toque, como o dos cegos, imperativa, sua voz de criança gentil contrariada. Segurou minha mão por uma hora inteira. Não tem santos estigmas, só escaras e a vida que vive nele e o faz brandir, profeta no seu jejum: ter nascido já é lucro. |
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p. 99 |
Consanguíneos Não há culpados para a dor que eu sinto. É Ele, Deus, quem me dói pedindo amor como se fora eu Sua mãe e O rejeitasse. Se me ajudar um remédio a respirar melhor, obteremos clemência, Ele e eu. Jungidos como estamos em formidável parelha, enquanto Ele não dorme eu não descanso. |
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