quarta-feira, setembro 16, 2026

PRADO, Adélia. A duração do dia. Rio de Janeiro: Record, 2010.

 

PRADO

Área: poesia

Tema(s): lírica, cotidiano,

 

PRADO, Adélia. A duração do dia. Rio de Janeiro: Record, 2010.

 

p. 9

Tão bom aqui

 

Me escondo no porão

para melhor aproveitar o dia

e seu plantel de cigarras.

Entrei aqui para rezar,

agradecer a Deus este conforto gigante.

Meu corpo velho descansa regalado,

tenho sono e posso dormir,

tendo comido e bebido sem pagar.

O dia lá fora é quente,

a água na bilha é fresca,

acredito que sugestiono elétrons.

Eu só quero saber do microcosmo,

o de tanta realidade que nem há.

Na partícula visível de poeira

em onda invisível dança a luz.

Ao cheiro de café minhas narinas vibram,

alguém vai me chamar.

Responderei amorosa,

refeita de sono bom.

Fora que alguém me ama,

eu nada sei de mim.

 

p. 30

História que me contaram (escrita criativa: transformar poema em prosa)

 

Vozes, lamparinas

e o cheiro de querosene da pobreza.

O órfão de um ano debatendo-se

choramingava em seu mar de fezes.

Deus está me mostrando o que será minha vida,

gemeu o viúvo,

arrepanhando o lençol por suas pontas.

Teve depois um sonho:

chegava em casa com uma nova mulher

e viu, da porteira, os filhos indo embora.

Ficou tão abalado, chorou tanto

que fez uma promessa: nunca mais casar-se.

Tinha beleza e fogo.

Mesmo sendo na história

me apaixonei pelo homem,

mesmo sem esperança.

 

p. 37

Alvará de demolição

 

O que precisa nascer

tem sua raiz em chão de casa velha.

À sua necessidade o piso cede,

estalam rachaduras nas paredes,

os caixões de janela se desprendem.

O que precisa nascer

aparece no sonho buscando frinchas no teto,

réstias de luz e ar.

Sei muito bem do que este sonho fala

e a quem pode me dar

peço coragem.

 

p. 41

Harry Potter

 

Quando era criança

escondia-me no galinheiro

hipnotizando galinhas.

Alguma força se esvaía de mim,

pois ficávamos tontas, eu e elas.

Ninguém percebia minha ausência,

o esforço de levantar-me pelas orelhas,

tentando o maravilhoso.

Até hoje fico de tocaia

para óvnis, luzes misteriosas,

orar em línguas, ter o dom da cura.

Meu treinamento é ordenar palavras:

Sejam um poema, digo-lhes,

não se comportem como, no galinheiro,

eu com as galinhas tontas.

 

p. 55

Sem saída

 

Escreve-se para dizer

sou mais que meu pobre corpo.

Os óculos do escritor o atestam,

lentes que para dentro olham,

sua foto contra a estante,

sempre flagrada a meio desalinho.

Que imensa pedreira aquele monte de livros,

indiferença treinada para esconder sofrimento.

Falsamente humilde, não escreveria mais,

mortal pecado,

pretensão de poder reservada ao divino.

Só lhe resta posar

sem corrigir os ângulos destruídos

à animadora legenda:

O escritor no seu gabinete.

 

p. 73

Alcateia

 

Você reza demais, Luzia.

Que aborrecimento esta sua pressa

em fugir pro jardim com seu rosário.

Quem me dera, mesmo, dia e noite rezar,

estou oca de medo.

É admirável que com palpitações e boca seca

eu suba escada para ver do muro

quem fala tanto palavrão.

Rezar demais é ter rezado nada.

Invejo o bruto,

o que enfia tudo no de todo mundo

e não tem medo de Deus.

Quem me dera os lobos fossem fora de mim,

bastava um pau e os afugentaria.

Mas seus fantasmas é que uivam inalcançáveis.

Só a oração os detém,

a que ainda não sei como fazer.

 

p. 95

O enfermo

 

O doente que ir-se

para sua casa,

para a cama onde está

e não reconhece mais.

Tenho a fé abalada é o que diz

num espasmo de lucidez.

Seu toque, como o dos cegos,

imperativa, sua voz

de criança gentil contrariada.

Segurou minha mão por uma hora inteira.

Não tem santos estigmas, só escaras

e a vida que vive nele

e o faz brandir, profeta no seu jejum:

ter nascido já é lucro.

 

p. 99

Consanguíneos

 

Não há culpados para a dor que eu sinto.

É Ele, Deus, quem me dói pedindo amor

como se fora eu Sua mãe e O rejeitasse.

Se me ajudar um remédio a respirar melhor,

obteremos clemência, Ele e eu.

Jungidos como estamos em formidável parelha,

enquanto Ele não dorme eu não descanso.

 

 

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