GARCIA, Othon Moacyr. Comunicação em prosa moderna : aprenda a escrever, aprendendo a pensar. 27. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2010. 548 p.
ISBN: 978-85-225-0831-0
p. 27 – na fala ou discurso, há uma
“liberdade de combinações” de palavras – mas [...] há certos limites impostos
pela gramática, limites que impedem a invenção de uma nova língua cada vez que se fala”.
- um “mínimo de gramaticalidade”
condiciona nossa liberdade de construir frases – contudo pode haver frases
incorretas que são inteligíveis –
- a articulação sintática garante o
sentido;
- sem articulação sintática há
apenas um “ajuntamento de palavras”
p. 32 – Chomsky – “Colorless green
ideas sleep furiosily” (incolores ideias verdes dormem furiosamente)
- há traços de gramaticalidade
integral, mas no plano referencial-denotativo há incompatibilidade lógica entre
os termos.
- no plano metafórico, todas as
interpretações são possíveis – referencial-conotativo
- o entendimento, no contexto
poético, depende da cultura e da subjetividade do leitor ou ouvinte
- frase de i. I. Reozin (citado por
TODOROV, Tsvetan. Les anomalies sémantiques. Langages, n. 1, 1996b: 119) “le
poète creé um univers dans lequel se trouvent justifiées des phrases qui
n’avaient pas de sens dans as langue”.
- p. 59 – [16-07-2018: há mais
prosas e versos entre a homogeneidade formal da gramática e a homogeneidade do
sentido da lógica, do que sonha nossa vã linguisticologia]
– “permissividade poética” – é este
o poder da poesia, de quebrar regras lógicas e gramaticais, e de criar sentido
para além das convenções semânticas preestabelecidas pelas correntes da língua
usual?
- p. 70 – “É esse um processo de
correlação, ‘uma construção sintática de duas partes relacionadas entre si, de
tal sorte que a enunciação de uma, dita prótase,
prepara a enunciação da outra, dita apódose’.[1]
A primeira é condicionante, a
segunda, condicionada.”
- p. 71 – o ambitus verborum de Cícero – o verdadeiro período clássico
- “Como nas peças dramáticas, o
período tenso deve apresentar fases
sucessivas: a prótase (início ou
introdução), a epítese (conflito) e catástrofe (no drama) ou a apódose (desfecho, desenlace).”
- p. 75 – Lide retórico
- circunstância, retórica: - também em
narração:
- a própria ação (o quê? – latim: quid?) -
verbo / ou núcleo do predicado
- a pessoa (quem? – latim: quis?) -
sujeito / ou objeto
- o lugar (onde? – latim: ubi?) -
adjuntos adverbiais ou orações adverbiais
- o tempo (quando? – latim: quando?) -
...
- a causa (por quê? – latim: cur?) -
...
- o modo (como? – latim: quomodo?) - ...
- e os meios (com quê? – latim: quibus auxiliis?) - ...
- p. 89s – ecer, escer – sufixo incoativo
ou inceptivo
- amanhecente – particípio incoativo
- amanhecer – começar a ficar de
manhã
- envelhecer – começar a ficar velho
- p. 97 – prefixos
negativos ou privativos: in, des
- opositivos:
contra, anti
- p. 100 – 1.6.0
Como indicar as circunstâncias e outras relações entre as ideias
1.6.7 Oposição e
concessão
- “Por uma espécie
de automatismo psíquico, uma ideia ou imagem quase sempre nos evoca outra que
se lhe assemelha. Constitui por assim dizer uma operação normal do espírito
estabelecer contraste e analogias: os primeiros traduzem-se principalmente em antíteses, e as segundas, em comparações e metáforas.”
- antítese
(oximoro, paradoxo) parece reflexo da própria realidade, que é em si mesma
contrastante; por “parecer” reflexo da realidade, essa figura retórica seria
mímesis? [de repente estou chovendo no molhado; isto já está na Ars retórica?]
- p. 101 – “Só
fazemos do que é preto porque sabemos o que é o branco”.
- [então o
conhecimento de B (preto) se dá a partir de A (branco)?; o B é a posteriori; e o A, seria a priori?; o A se daria a partir de
quê?; de uma ideia?, de um nome?;]
- metáforas antitéticas, ou
contraditórias, presentes no soneto de Francisco de Vasconcelos In: Fênix renascida. Colet. 5vs. Pub. H
1716-1728 – sob direção de Matias Pereira da Silva.
“Baixel de confusão em mares de
ânsia,
- p. 102 – Edifício caduco em vil
terreno,
Rosa murchada já no campo ameno,
Berço trocado em tumba desde a
infância;” [...]
- “A antítese é tanto mais
expressiva quanto mais concisa, isto é, quanto menos o número de palavras em
que se traduz, como se pode observar na maioria das máximas e provérbios. Basta
ler La Rochefoucauld ou o nosso marquês de Maricá.”
- p. 107 – “Mas a realidade não é
constituída apenas por contrastes; também o é por semelhanças.”
- comparações e analogias
KONRAD, Edwig. Étude sur la métaphore. Paris:
Librairie J. Vrin, 1958.
- p. 107 – final – a metáfora
pressupõe semelhanças e quer evidenciar/aclarar uma ideia nova
-
em P. D. – imago - - - - - > poesis/logos
-
qual a semelhança?
-
o que se quer evidenciar/aclarar?
- p. 107-108 – um atributo em A, que
se quer destacar, surge em B, depois do recorte de outras possibilidades, no
termo metafórico mais conhecido, mais evidente.
Aaa à Baa
![]()
![]()
A
aa B
- essa evidenciação
resultante do processo metafórico ou contida na própria metáfora, não
coincidiria com o preceito de evidenciação do método cartesiano?
-
dúvida metódica à
evidência
-
poder-se-ia equiparar
ao
recorte de outras
imagens
oara se
![]()
chegar
à imagem
![]()
A aa
B que será a metáfora clara
entre A e B
- neste caso a comparação ou a
metáfora é o próprio processo de evidenciação (o meio) quanto ao conteúdo
resultante (o fim)
- p. 108 – Lock – imperativo da
concretude sobre a capacidade humana de abstração
- Wittigenstein? – limite mundo =
limite linguagem
- então P. D. é o esforço de “[...]
traduzir noções ou conceitos abstratos (exemplos, comparações) de referências
aos objetos das nossas percepções sensíveis. Muito forte é abstração: forte
como um touro é concreção. Quanto mais concreta e objetiva é a nossa
linguagem, tanto mais precisa, tanto mais clara se torna (ver 2. Voc., 2.0)”.
- @ ler mais sobre
-
motivação da metáfora
-
tipos / tipologia da metáfora
- p. 109 dois círculos secantes:
A e B
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- plano - plano imaginário ou poético
verbal
- p. 11 – semântica estruturalista:
-
processo metafórico à
organização sêmica da mensagem
palavra (ou lexema) à formada por à unidades mínimas de sentido (semas) à o conjunto dessas unidades dá o significado da palavra
(semema).
- semema à leão à
termo comparante (Cte)
-
semas (culturalizados, codificados, de ordem denotativa):
- mamífero, quadrúpede, ímpeto,
ferocidade, destruição, mortífero, cor avermelhada (juba ruiva)
- semema à incêndio à
termo comparado (Cdo)
-
semas:
- cor avermelhada das labaredas,
destruição, morte, ímpeto das chamas
- Processo metafórico evidencia os
semas (S) comuns entre Cte ... S ... Cdo
Cte à leão
S à mortífero, cor vermelha, ímpeto, destruição...
Cdo à incêndio
- p. 112 – normalmente o termo de
sentido próprio A e o termo de sentido metafórico B pertencem à mesma classe de
palavras,
- é mais comum metáforas com
substantivos mas há as
à
com adjetivos - palavras torrenciais,
voz cristalina
à
com verbos – o dia nasce, o violão chora [prosopopeia???]
à
com advérbios em mente – o hóspede atirou-se caninamente sobre o assado
- p. 112 - KONRAD, Edwig. Étude sur la métaphore.
Paris: Librairie J. Vrin, 1958.
Konrad (1958:129)
- “Alguns autores, como Konrad
(1958:129), costumam distinguir a metáfora estética (outros preferem
dizer estilística), que é a criação pessoal, inovadora, estilisticamente
individualizada, da metáfora linguística, aquela que, por inópia verbal,
se torna forçada e, instaurando-se na língua, acaba estiolada como patrimônio
de todos, como vocábulo dicionarizado, como léxico, enfim. Da palavra assim
empregada nem sempre se tem viva consciência de que é o resultado de um
processo metafórico (ver “Catacrese”, 1.6.8.2).”
-
“1.6.8.1.1 Metáfora e imagem
Em psicologia, a palavra imagem designa
toda representação ou reconstituição mental de uma vivência sensorial que tanto
pode ser visual — caso mais comum — quanto auditiva, olfativa, gustativa, tátil
ou, mesmo, totalmente psicológica. Em semiologia e comunicação, é a
“representação concreta que
- p. 113 -serve para ilustrar uma
ideia abstrata”. 35 (Cf. Lalande (1962),
verbete image, C.): LALANDE,
André. Vocabulaire technique et critique de la phylosophie. Paris:
Presses Universitaires de France,
1962.
- “Em
teoria literária, é frequente o uso dessa palavra com um sentido equivalente ao
de metáfora ou de símile. John Middleton,36 por exemplo, julga preferível seu emprego com esse sentido abrangente,
para pôr em relevo a identidade fundamental entre aqueles dois tropos.” (Cf.
Shakespeare criticism, p. 227 apud Marques (1956:27).): MARQUES, Oswaldino. Teoria da metáfora &
renascença da poesia americana. Rio de Janeiro: São José, 1956.”
- “Mas vários autores — como Herbert
Read, C. Day Lewis, Wellek, Warren e outros — têm tentado estabelecer diferença
entre imagem, por um lado, e metáfora e símile, por outro, tentativa, ao
que nos parece, infrutífera, pois, na realidade, a distinção é antes
psicológica do que propriamente formal. Paul Reverdy, citado por Read
(1951:98-99), diz que a imagem ‘é pura criação mental’ e ‘não pode emergir de
uma comparação mas apenas da associação entre duas realidades mais ou menos
distantes’. Para Lewis (1958:18, 22), ‘a imagem poética é mais ou menos uma
representação sensorial, traduzida em palavras até certo ponto metafóricas’.
Como se vê, esses dois autores se mostram imprecisos na conceituação de imagem
(‘é mais ou menos’, ‘até certo ponto’).”
- [há uma imprecisão na conceituação
de imagem (?) – buscar outras referências]
- “Richards (1952:119)
preceitua que “aquilo que confere eficácia a uma imagem (...) é seu caráter de
evento mental peculiarmente relacionado com uma sensação”. Essa é outra
conceituação puramente psicológica que, necessariamente, não inclui nem exclui
a possibilidade de imagem abranger ou não abranger a metáfora e o
símile.
Em face da opinião
desses autores, será válido dizer que a imagem: (a) é uma representação
(reconstituição, reprodução) mental de resíduos37[2]
de sensações ou
impressões predominantemente mas não exclusivamente visuais, que o espírito
reelabora[3], associando-as a outras,
similares ou contíguas, e (b) pode assumir a forma de uma metáfora ou de um
símile e, mesmo, de outros tropos[4] (metonímia, alegoria,
símbolo). Assim, com maior ou menor rigor, é perfeitamente cabível empregar — e
geralmente empregamos — a palavra imagem para designar qualquer recurso
de expressão de contextura metafórica, comparativa, associativa, analógica,
através do qual se representa a realidade de maneira transfigurada.”[5]
- “1.6.8.2 Catacrese
Quando a translatio (transferência
ou transposição, sentido etimológico de metáfora) do nome de uma coisa
(A) para com ele designar outra (B), semelhante, se impõe por não existir termo
próprio para a segunda (B) e/ou resulta de um abuso no emprego da palavra
“transferida”, o que se tem é uma catacrese (que, etimologicamente,
significa “abuso”). O fundamento e o processo de formação dessa figura (tropo)
são os mesmos da metáfora: ambas se baseiam numa relação de similaridade; mas a
diferença entre ambas reside
- p. 114. - ainda no fato de que a
catacrese, além de estender o sentido de uma palavra levando-o para fora do seu
âmbito estrito e habitual, deixa de ser sentida como metáfora, dado o seu uso
corrente.[6]
Se não se dispõe de palavra própria
para designar com exclusividade as colunas que sustentam o tampo da mesa, que
fazer? Criar um neologismo ou aproveitar palavra já existente que designe coisa
semelhante, como a perna ou o pé que sustentam o corpo humano;
daí a catacrese perna (ou pé) da mesa.
- p. 122 – em sinédoque – símbolo
- o símbolo pode ser formado também
pelo processo metafórico – pela relação mentada de semelhança ou similaridade
entre Cte e Cdo
balança à equilíbrio à justiça
|
| |
|
equidade |
concreta ....... EQUIDADE ....
abstrata
- p. 124 – a metáfora pode ser,
frequentemente, a base da antonomásia de substituição de nome próprio por nome
comum:
-
pérola das Antilhas (Cuba)
- p. 126 – “A rigor, a natureza não
tem estilo; [...]”
- p. 128 – a coordenação à raciocínio linear à estilo moderno
-
a subordinação à
processo sinuoso à
classicismo
à certa fase do romantismo
- p. 140 – período entre guerras I e
II – frases fragmentárias; uso não ortodoxo da pontuação [efeito da gramática
psicológica???]
- p. 142 – frase caótica – fluxo de
consciência – que se seguiu após I Guerra e Semana de 22
- p. 143 – a frase caótica, como
expressão livre, o depoimento feito no divã do psicanalista; o monólogo interior: o narrador deixa a
personagem livre em fluxo de consciência, ignorando a presença do
leitor/ouvinte [ou que passa a ser o “ouvinte”]
- monólogo interior[7]:
ficção moderna (alógico, incoerente, difuso)
≠
- solilóquio dramático: tipo
hamletiano (lógico, coerente, porque presume a presença do leitor)
-------
não anotei as páginas:
- outras
referências de GARCIA, Othon Moacyr. Comunicação em
prosa moderna
COHEN, Jean. Structure du langage poétique. Paris:
Flammarion, 1966.
KONRAD, Edwig. Étude sur la métaphore. Paris:
Librairie J. Vrin, 1958.
[1] Cf. Câmara
Jr. (1956b), verbetes “condicional” e “correlação”.
CÂMARA JR., J. Matoso. Dicionário
de fatos gramaticais. Rio de Janeiro: MEC/Casa de Rui Barbosa, 1956b.
[2] ver a fonte Sheffer - imagem é o resíduo de uma
experiência...
- me lembrou:
Camille Claudel (morou, na Île de Saint Louis): a frase demolidora
de uma carta que ela enviou a Auguste Rodin há mais de um século: "Il y a
toujours quelque chose d'absent qui me tourmente" ("Há sempre uma
ausência que me atormenta")
[3] no caso
de P. D. há um imago construído a partir do qual um logos arranca uma
representação...(?)
[4] verificar se isto acontece em PD; se acontece, verificar a
predominância de qual tropo
[5] essa
realidade transfigurada por ter alguma coisa a ver com o processo de
transmudação e transmutação referidos do livro do processo criativo de T. S.
Eliot.
[6] há passagens
em PD que predominam a catacrese e não a metáfora?
[7] [Trevisan
faz isto em Ana em Veneza]
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