quarta-feira, setembro 16, 2026

GARCIA, Othon Moacyr. Comunicação em prosa moderna - aprenda a escrever

 GARCIA, Othon Moacyr. Comunicação em prosa moderna : aprenda a escrever, aprendendo a pensar. 27. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2010. 548 p.

ISBN: 978-85-225-0831-0

 

p. 27 – na fala ou discurso, há uma “liberdade de combinações” de palavras – mas [...] há certos limites impostos pela gramática, limites que impedem a invenção de uma nova língua cada vez que se fala”.

- um “mínimo de gramaticalidade” condiciona nossa liberdade de construir frases – contudo pode haver frases incorretas que são inteligíveis –

- a articulação sintática garante o sentido;

- sem articulação sintática há apenas um “ajuntamento de palavras”

 

p. 32 – Chomsky – “Colorless green ideas sleep furiosily” (incolores ideias verdes dormem furiosamente)

- há traços de gramaticalidade integral, mas no plano referencial-denotativo há incompatibilidade lógica entre os termos.

- no plano metafórico, todas as interpretações são possíveis – referencial-conotativo

- o entendimento, no contexto poético, depende da cultura e da subjetividade do leitor ou ouvinte

- frase de i. I. Reozin (citado por TODOROV, Tsvetan. Les anomalies sémantiques. Langages, n. 1, 1996b: 119) “le poète creé um univers dans lequel se trouvent justifiées des phrases qui n’avaient pas de sens dans as langue”.

 

- p. 59 – [16-07-2018: há mais prosas e versos entre a homogeneidade formal da gramática e a homogeneidade do sentido da lógica, do que sonha nossa vã linguisticologia]

– “permissividade poética” – é este o poder da poesia, de quebrar regras lógicas e gramaticais, e de criar sentido para além das convenções semânticas preestabelecidas pelas correntes da língua usual?

 

- p. 70 – “É esse um processo de correlação, ‘uma construção sintática de duas partes relacionadas entre si, de tal sorte que a enunciação de uma, dita prótase, prepara a enunciação da outra, dita apódose’.[1] A primeira é condicionante, a segunda, condicionada.”

 

- p. 71 – o ambitus verborum de Cícero – o verdadeiro período clássico

- “Como nas peças dramáticas, o período tenso deve apresentar fases sucessivas: a prótase (início ou introdução), a epítese (conflito) e catástrofe (no drama) ou a apódose (desfecho, desenlace).”

 

- p. 75 – Lide retórico

- circunstância, retórica:                               - também em narração:

- a própria ação (o quê? – latim: quid?)        - verbo / ou núcleo do predicado

- a pessoa (quem? – latim: quis?)                  - sujeito / ou objeto

- o lugar (onde? – latim: ubi?)                       - adjuntos adverbiais ou orações adverbiais

- o tempo (quando? – latim: quando?)          - ...

- a causa (por quê? – latim: cur?)                  - ...

- o modo (como? – latim: quomodo?)           - ...

- e os meios (com quê? – latim: quibus auxiliis?)    - ...

 

- p. 89s – ecer, escer – sufixo incoativo ou inceptivo

- amanhecente – particípio incoativo

- amanhecer – começar a ficar de manhã

- envelhecer – começar a ficar velho

 

- p. 97 – prefixos negativos ou privativos: in, des

- opositivos: contra, anti

 

- p. 100 – 1.6.0 Como indicar as circunstâncias e outras relações entre as ideias

 

1.6.7 Oposição e concessão

 

- “Por uma espécie de automatismo psíquico, uma ideia ou imagem quase sempre nos evoca outra que se lhe assemelha. Constitui por assim dizer uma operação normal do espírito estabelecer contraste e analogias: os primeiros traduzem-se principalmente em antíteses, e as segundas, em comparações e metáforas.”

 

- antítese (oximoro, paradoxo) parece reflexo da própria realidade, que é em si mesma contrastante; por “parecer” reflexo da realidade, essa figura retórica seria mímesis? [de repente estou chovendo no molhado; isto já está na Ars retórica?]

 

- p. 101 – “Só fazemos do que é preto porque sabemos o que é o branco”.

- [então o conhecimento de B (preto) se dá a partir de A (branco)?; o B é a posteriori; e o A, seria a priori?; o A se daria a partir de quê?; de uma ideia?, de um nome?;]

 

- metáforas antitéticas, ou contraditórias, presentes no soneto de Francisco de Vasconcelos In: Fênix renascida. Colet. 5vs. Pub. H 1716-1728 – sob direção de Matias Pereira da Silva.

 

“Baixel de confusão em mares de ânsia,

 

- p. 102 – Edifício caduco em vil terreno,

Rosa murchada já no campo ameno,

Berço trocado em tumba desde a infância;” [...]

 

- “A antítese é tanto mais expressiva quanto mais concisa, isto é, quanto menos o número de palavras em que se traduz, como se pode observar na maioria das máximas e provérbios. Basta ler La Rochefoucauld ou o nosso marquês de Maricá.”

 

- p. 107 – “Mas a realidade não é constituída apenas por contrastes; também o é por semelhanças.”

- comparações e analogias

KONRAD, Edwig. Étude sur la métaphore. Paris: Librairie J. Vrin, 1958.

 

- p. 107 – final – a metáfora pressupõe semelhanças e quer evidenciar/aclarar uma ideia nova

            - em P. D. – imago - - - - - > poesis/logos

                                   - qual a semelhança?

                                   - o que se quer evidenciar/aclarar?

 

- p. 107-108 – um atributo em A, que se quer destacar, surge em B, depois do recorte de outras possibilidades, no termo metafórico mais conhecido, mais evidente.

 

Aaa    à Baa

A    aa    B

 

- essa evidenciação resultante do processo metafórico ou contida na própria metáfora, não coincidiria com o preceito de evidenciação do método cartesiano?

 

            - dúvida metódica à evidência

                        - poder-se-ia equiparar

                        ao recorte de outras

                        imagens oara se

                        chegar à imagem

                                                                       A    aa    B       que será a metáfora clara

entre A e B

 

- neste caso a comparação ou a metáfora é o próprio processo de evidenciação (o meio) quanto ao conteúdo resultante (o fim)

 

- p. 108 – Lock – imperativo da concretude sobre a capacidade humana de abstração

- Wittigenstein? – limite mundo = limite linguagem

 

- então P. D. é o esforço de “[...] traduzir noções ou conceitos abstratos (exemplos, comparações) de referências aos objetos das nossas percepções sensíveis. Muito forte é abstração: forte como um touro é concreção. Quanto mais concreta e objetiva é a nossa linguagem, tanto mais precisa, tanto mais clara se torna (ver 2. Voc., 2.0)”.

 

- @ ler mais sobre

- motivação da metáfora

- tipos / tipologia da metáfora

 

- p. 109 dois círculos secantes:

 

   A    e   B

 

- plano            - plano imaginário ou poético

verbal

 

- p. 11 – semântica estruturalista:

            - processo metafórico à organização sêmica da mensagem

 

palavra (ou lexema) à formada por à unidades mínimas de sentido (semas) à o conjunto dessas unidades dá o significado da palavra (semema).

 

- semema à leão à termo comparante (Cte)

 

                        - semas (culturalizados, codificados, de ordem denotativa):

- mamífero, quadrúpede, ímpeto, ferocidade, destruição, mortífero, cor avermelhada (juba ruiva)

 

- semema à incêndio à termo comparado (Cdo)

 

                        - semas:

- cor avermelhada das labaredas, destruição, morte, ímpeto das chamas

 

- Processo metafórico evidencia os semas (S) comuns entre Cte ... S ... Cdo

 

Cte à leão

S à mortífero, cor vermelha, ímpeto, destruição...

Cdo à incêndio

 

- p. 112 – normalmente o termo de sentido próprio A e o termo de sentido metafórico B pertencem à mesma classe de palavras,

 

- é mais comum metáforas com substantivos mas há as

à com adjetivos - palavras torrenciais, voz cristalina

à com verbos – o dia nasce, o violão chora [prosopopeia???]

à com advérbios em mente – o hóspede atirou-se caninamente sobre o assado

 

- p. 112 - KONRAD, Edwig. Étude sur la métaphore. Paris: Librairie J. Vrin, 1958.

Konrad (1958:129)

 

- “Alguns autores, como Konrad (1958:129), costumam distinguir a metáfora estética (outros preferem dizer estilística), que é a criação pessoal, inovadora, estilisticamente individualizada, da metáfora linguística, aquela que, por inópia verbal, se torna forçada e, instaurando-se na língua, acaba estiolada como patrimônio de todos, como vocábulo dicionarizado, como léxico, enfim. Da palavra assim empregada nem sempre se tem viva consciência de que é o resultado de um processo metafórico (ver “Catacrese”, 1.6.8.2).

 

- “1.6.8.1.1 Metáfora e imagem

 

Em psicologia, a palavra imagem designa toda representação ou reconstituição mental de uma vivência sensorial que tanto pode ser visual — caso mais comum — quanto auditiva, olfativa, gustativa, tátil ou, mesmo, totalmente psicológica. Em semiologia e comunicação, é a “representação concreta que

 

- p. 113 -serve para ilustrar uma ideia abstrata”. 35 (Cf. Lalande (1962), verbete image, C.):  LALANDE, André. Vocabulaire technique et critique de la phylosophie. Paris:

Presses Universitaires de France, 1962.

 

- “Em teoria literária, é frequente o uso dessa palavra com um sentido equivalente ao de metáfora ou de símile. John Middleton,36 por exemplo, julga preferível seu emprego com esse sentido abrangente, para pôr em relevo a identidade fundamental entre aqueles dois tropos.” (Cf. Shakespeare criticism, p. 227 apud Marques (1956:27).): MARQUES, Oswaldino. Teoria da metáfora & renascença da poesia americana. Rio de Janeiro: São José, 1956.”

 

- “Mas vários autores — como Herbert Read, C. Day Lewis, Wellek, Warren e outros — têm tentado estabelecer diferença entre imagem, por um lado, e metáfora e símile, por outro, tentativa, ao que nos parece, infrutífera, pois, na realidade, a distinção é antes psicológica do que propriamente formal. Paul Reverdy, citado por Read (1951:98-99), diz que a imagem ‘é pura criação mental’ e ‘não pode emergir de uma comparação mas apenas da associação entre duas realidades mais ou menos distantes’. Para Lewis (1958:18, 22), ‘a imagem poética é mais ou menos uma representação sensorial, traduzida em palavras até certo ponto metafóricas’. Como se vê, esses dois autores se mostram imprecisos na conceituação de imagem (é mais ou menos’, ‘até certo ponto’).”

 

- [há uma imprecisão na conceituação de imagem (?) – buscar outras referências]

 

- “Richards (1952:119) preceitua que “aquilo que confere eficácia a uma imagem (...) é seu caráter de evento mental peculiarmente relacionado com uma sensação”. Essa é outra conceituação puramente psicológica que, necessariamente, não inclui nem exclui a possibilidade de imagem abranger ou não abranger a metáfora e o símile.

 

Em face da opinião desses autores, será válido dizer que a imagem: (a) é uma representação (reconstituição, reprodução) mental de resíduos37[2] de sensações ou impressões predominantemente mas não exclusivamente visuais, que o espírito reelabora[3], associando-as a outras, similares ou contíguas, e (b) pode assumir a forma de uma metáfora ou de um símile e, mesmo, de outros tropos[4] (metonímia, alegoria, símbolo). Assim, com maior ou menor rigor, é perfeitamente cabível empregar — e geralmente empregamos — a palavra imagem para designar qualquer recurso de expressão de contextura metafórica, comparativa, associativa, analógica, através do qual se representa a realidade de maneira transfigurada.”[5]

 

- “1.6.8.2 Catacrese

Quando a translatio (transferência ou transposição, sentido etimológico de metáfora) do nome de uma coisa (A) para com ele designar outra (B), semelhante, se impõe por não existir termo próprio para a segunda (B) e/ou resulta de um abuso no emprego da palavra “transferida”, o que se tem é uma catacrese (que, etimologicamente, significa “abuso”). O fundamento e o processo de formação dessa figura (tropo) são os mesmos da metáfora: ambas se baseiam numa relação de similaridade; mas a diferença entre ambas reside

 

- p. 114. - ainda no fato de que a catacrese, além de estender o sentido de uma palavra levando-o para fora do seu âmbito estrito e habitual, deixa de ser sentida como metáfora, dado o seu uso corrente.[6]

Se não se dispõe de palavra própria para designar com exclusividade as colunas que sustentam o tampo da mesa, que fazer? Criar um neologismo ou aproveitar palavra já existente que designe coisa semelhante, como a perna ou o que sustentam o corpo humano; daí a catacrese perna (ou ) da mesa.

 

- p. 122 – em sinédoque – símbolo

- o símbolo pode ser formado também pelo processo metafórico – pela relação mentada de semelhança ou similaridade entre Cte e Cdo

 

balança   à   equilíbrio   à   justiça

     |                                  |           |

     |                            equidade    |

concreta ....... EQUIDADE .... abstrata

 

- p. 124 – a metáfora pode ser, frequentemente, a base da antonomásia de substituição de nome próprio por nome comum:

            - pérola das Antilhas (Cuba)

 

- p. 126 – “A rigor, a natureza não tem estilo; [...]”

 

- p. 128 – a coordenação à raciocínio linear à estilo moderno

            - a subordinação à processo sinuoso à classicismo

                                                                       à certa fase do romantismo

 

- p. 140 – período entre guerras I e II – frases fragmentárias; uso não ortodoxo da pontuação [efeito da gramática psicológica???]

 

- p. 142 – frase caótica – fluxo de consciência – que se seguiu após I Guerra e Semana de 22

 

- p. 143 – a frase caótica, como expressão livre, o depoimento feito no divã do psicanalista; o monólogo interior: o narrador deixa a personagem livre em fluxo de consciência, ignorando a presença do leitor/ouvinte [ou que passa a ser o “ouvinte”]

 

- monólogo interior[7]: ficção moderna (alógico, incoerente, difuso)

- solilóquio dramático: tipo hamletiano (lógico, coerente, porque presume a presença do leitor)

 

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não anotei as páginas:

- outras referências de GARCIA, Othon Moacyr. Comunicação em prosa moderna

 

COHEN, Jean. Structure du langage poétique. Paris: Flammarion, 1966.

KONRAD, Edwig. Étude sur la métaphore. Paris: Librairie J. Vrin, 1958.

 



[1] Cf. Câmara Jr. (1956b), verbetes “condicional” e “correlação”.

CÂMARA JR., J. Matoso. Dicionário de fatos gramaticais. Rio de Janeiro: MEC/Casa de Rui Barbosa, 1956b.

[2] ver a fonte Sheffer - imagem é o resíduo de uma experiência...

- me lembrou:

Camille Claudel (morou, na Île de Saint Louis): a frase demolidora de uma carta que ela enviou a Auguste Rodin há mais de um século: "Il y a toujours quelque chose d'absent qui me tourmente" ("Há sempre uma ausência que me atormenta")

[3] no caso de P. D. há um imago construído a partir do qual um logos arranca uma representação...(?)

[4] verificar se isto acontece em PD; se acontece, verificar a predominância de qual tropo

[5] essa realidade transfigurada por ter alguma coisa a ver com o processo de transmudação e transmutação referidos do livro do processo criativo de T. S. Eliot.

[6] há passagens em PD que predominam a catacrese e não a metáfora?

[7] [Trevisan faz isto em Ana em Veneza]

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